insônia


dormir agora
seria
           muito perigoso

não sei se escorro
descorro
ou corro
     pelas palavras
                          desmolhadas
                          desvulvadas
das bocas
que você inventa
que arrepiam
                    e explodem
os tímpanos
da minha glande

tenho medo
do que posso deixar
de ouvir
se sonhar
              descuidado
por um sono
traiçoeiro
a me desgarrar
das suas
            palavras-entranhas

tenho medo
de continuar a escutá-las
dormindo
e acordar
sem a noção
                   do que seja tempo
                   do que seja suor
                   do que seja mijo

continue
falando
este dialeto
       barulhos
de pele e silêncio e espera e vagina
que
vão esfaqueando
meus músculos
rígidos
e quanto mais
perco
sêmen e sangue
suga
       de meu cérebro
engessado
gritos indecifráveis
         que traduzem seu desejo

não pare
não descanse
entre uma respiração e outra
perpetue-me
                    taquicárdico
mas se um suspiro
for urgente
e inadiável
deixe-me morrer
                         aos poucos
inexplicável e feliz
nos hiatos deste gozo

dormir, jamais!


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©
Alberto Vilela Chaer [AL-Chaer]
alberto.chaer@cultura.com.br