Vértices


Mesmo que não passe de hoje, é preciso ser dito
que conheci os três vértices.
Três jovens mulheres:
um último passo, a cobiça da partida, o gesto inadiável.
Fantasias. Não durarão.
Têm o apelo eterno do efêmero.

Esse primeiro anjo se foi.
Era rica, criança, podia voar.
Guardei seu riso para sempre.
Dizem que há o que não se pode manter num baú.

Minha segunda esperança tem partida certa.
Enquanto encanta, pinta de dourado a calçada em que piso.
Dá sela a um cavalo-marinho azul.
Tem nas mãos os segredos dos mártires;
nos olhos, o fio da navalha
entre o que é bom
e o que é mau.

Se a terceira ficar, é porque milagres existem.
É uma santa morena. Magra. Um pássaro da noite.
É bela como um vinho tinto, um buquê de rosas,
uma criança descalça.
Ela supera qualquer metáfora
e me embala com palavras de sonho.

Meus vértices
ensinaram-me que só os abençoados conhecem
o significado da paixão e seus meandros.

Antes, eu não conhecia nada,
agora eu sei.

Enxerguei o abismo e suas contradições.
Beberiquei cachaça com soberanos
e champanhe com ordinários.
Namorei a noite
que aceitou meus modos boêmios
e a prostituição dos princípios.
Sou um Todo-Poderoso da devassidão.
Despertei entre as proibidas,
entupi-me de fel
e aversão à maquinaria desta estúpida cidade.

Tenho a fronte marcada.


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© Alexandre Carvalho
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