Com a vida ao redor


Há amantes nos acostamentos das estradas empoeiradas.
Há amantes nos gramados das praças noturnas.
Há amantes escondendo-se pelos cantos nas festas de família.
Há amantes engolindo a poeira dos drive-ins.
Há almas-gêmeas por todos os lados.

Há amantes suados e esgotados em quartos imundos.
Centenas de namorados nos shopping centers.
Há amantes ouvindo jazz e bebendo cerveja em longas conversas preliminares.
Milhares de casais namorando as crateras lunares.
Há amantes nas grandes cidades, nos celeiros do interior,
nas paredes dos becos, no vapor das saunas,
nos banheiros de estações rodoviárias.

Ruas do centro, repletas de mulheres descalças.
Homens nos carros. Visões do final da noite.

E eu, no alto do meu caderno de notas,
majestoso em minha solidão.

Amantes nas cifras das heranças,
nos camarotes exclusivos,
nas camas dos pais, que fingem não saber.

Há amantes em todas as fases da história.
Exibem-se nas vitrines,
escorrem pelo ladrão,
estão virando coqueluche.

Amantes e namorados e noivos e amizades coloridas
- e outras muito sérias -
e flertes e paixões platônicas,
no segundo em que passam a ser correspondidas,
e amantes e amados e amores para sempre
e crianças de mãos dadas
fazem um passeio pela minha calçada,
com uma naturalidade que me faz pensar se sou o único errado.


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© Alexandre Carvalho
alecarvalho@uol.com.br