Deixem-nos exibir as cicatrizes



Deixem-nos exibir as cicatrizes,
precisamos delas para parecermos fortes
e restabelecer a imagem do que venceu,
não pela vitória, mas pela coragem da luta.

Embora insígnias de domínio e medo,
são apenas confronto,
forças oponentes e covardes que,
não podendo encarar-se mutuamente,
existem delimitando território
em nosso corpo.

Deixem-nas mostrarem-se
para que tenham compaixão de si mesmas,
no impulso tênue, mas essencial da aceitação.
A exposição continuada arrefece as vergonhas
esvazia-lhes a importância e
coloca como naturais as emoções.

A linha, como sinal,
imprime na pele o limite:
aprisiona enquanto veste,
liberta enquanto supera.

Inofensivas, estampadas na couraça,
são, no espírito, marcas para a eternidade.
Imortal, a alma as carregará,
até que delas possa libertar-se
para exercer a plenitude.

Crescer exige expandir-se e, interiores,
as cicatrizes restringem
como se o lar ficasse
entre o espartilho e a coleira
os sapatos pequenos e o cinto de castidade.
Liberdade, até mesmo para o perene, é insubstituível!

Deixem-nos exibir as cicatrizes,
precisamos delas para salvar nossa fé
de que haverá passado: tudo é possível percorrer
se, no final, estiver a supremacia
dos pensamentos bons sobre os tempos ruins.
São provas vencidas.

Nossas cicatrizes...
é preciso mostrá-las, nuas,
e chorá-las, muito,
para que estejam coladas
à dignidade de tê-las obtido,
com dor, mas sem culpas ou necessidade de perdão.
Deixem-nos exibi-las, deixem-me em paz.



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