Os Cem Anos do Imaculada Conceição

 

Alunos gritam no último dia de aula:

"Imaculada Conceição: entra burro e sai ladrão"

um acerto de contas de Luiz Andrioli

 

    Agradeço à carta que me foi gentilmente enviada. Fico feliz que a Escola Imaculada Conceição complete no próximo ano o seu centenário. Ano 2000: cem anos de Imaculada Conceição. Bom slogan... Bonito... Certinho... Tão certinho como tudo o que aprendi nesta escola. Tudo catolicamente correto.

    Na época não conhecia o alemão Nietzsche e considerava todos os ditados católicos que me eram anunciados pelas irmãs de Deus como verdade intocável.

    Lembro da Irmã Miryam, criatura singular dentre as demais da escola. Estudava Parapsicologia e ensinava os alunos a jogar truco. A freira mais facãozeira que já conheci. Eu me interessei pelos cristais que pairavam sobre a sua mesa e ela me contava coisas sobre radiestesia. Pena que os intervalos eram curtos e a aula de geometria da professora Elaine sempre gozava de uma importância maior.

    A curiosidade (típica de um quase adolescente) me rendeu dois dias de um sono prolongado, sem eufemismo, pode-se entender como suspensão das aulas. Uma amiga pediu que eu escrevesse alguma poesia no seu caderno de recordações e confidências. Mal de quem não sabe esperar, discretamente, peguei o caderno para escrever durante uma explanação da Professora Elaine sobre geometria plana. Ela, que não pensava em poesias, matematicamente me encaminhou para a direção da escola. A diretora, catolicamente, tentou ligar para os meus pais:

    - Não sei para quem ligar – disse a diretora, Irmã Socorro – já que seus pais são separados.

    Para ela, pais separados deviam ser uma aberração. Hoje eu entendo o pensamento dela, afinal goza de uma casamento perfeito. Não precisa dividir teto e contas com o Espírito Santo.

    E a Laura, menina gorda de lábios cerrados. A garotada lhe aprovou a alcunha de bujão. Nada sério, apenas um apelido que se esqueceria em poucas semanas. O humanitarismo das freiras berrou quando soube que uma aluna gorda estava sendo comparada à um pote de gás.

    Os alunos todos perfilados, logo após cantar o hino (quase de cor) a menina Laura foi chamada para o oratório onde a freira mostrava um semblante de amargura:

    - Estou triste com vocês. Deve existir nesta escola o respeito com os colegas. Vocês devem cultivar o amor, como o nosso senhor Jesus o fez – colocou a mão na cabeça de Laura – quero saber, me digam se esta menina é parecida com um bujão!

    No dia me senti mal por escutar as palavras da freira. Não se deve chamar as pessoas de bujão, nem as gordas... Mas hoje penso na vergonha que a menina deve ter sentido ao ver todo o Colégio se perguntando sobre a semelhança dela ou não com um bujão de gás. A freira deve ter dormido em paz naquele dia, com a consciência tranqüila por ter feito decentemente a lição moral do dia. Mas acho que Laura não dormiu tão bem assim... Na certa hoje é uma daquelas pessoas que não te olham nos olhos e sente vergonha de repetir a sobremesa.

    - Tem prenda para a festa da escola? – perguntava eu nas casas do bairro. A turma que mais arrecadasse ganharia um passeio numa chácara, em pleno dia onde todos os outros estariam em aula. Com orgulho, a nossa turma foi campeã algumas vezes. As festas eram em benefício da construção do ginásio de esportes da escola. Durante seis anos escutei delongas conversas sobre os projetos do ginásio. Fui vê-lo de longe, quando universitário e distante há vários anos da escola convento. Hoje sei que o ginásio de esportes da escola Imaculada Conceição guarda em suas paredes a voz de uma criança que dizia: a festa é para o ginásio da escola.

    Amores existiram e se foram. Cartas e bilhetes escondidos foram trocados. O joelho voltou esfolado algumas vezes. O uniforme era cor do vinho, produto típico desta terra de italianos. Na mochila, sempre um álbum de figurinhas que era espiado a cada virada de costas da professora. O chão encerado era um escorregador improvisado. O melhor apelido que achamos para as freiras era "mulher do padre". Nas missas, o vento frio da porta lateral sempre causava mais interesse do que o sermão. Sempre dava aquela vontade de morder a hóstia, "é corpo de Cristo", não pode! Mas porque ficávamos com o corpo e o padre com o sangue?

    O aluno Marcelo, repetente quatro anos que sempre guardava um maço de cigarros na mochila, se apaixonou por uma aspirante a freira. Ele sorria enquanto a futura noviça mexia a panela de vina ao molho de tomate na cantina da escola. Nunca trocaram palavras maiores do que um "oi". Ela já era uma prometida para Deus e ele não terminaria o ano, para ajudar o pai na oficina.

    A verdade nem sempre é maior. Numa tarde jogava bola na escola com os amigos. Tempo de festa junina, eu sempre andava com um maço de bombinhas no bolso. No meio do campinho, alguém estourou um crack e alertou um inspetor:

    - Querem botar fogo na escola? – esbravejou.

    - Foi o Luiz – alguém gritou.

    Todos foram para a sala da direção. Eu fui o último a ser recebido pela freira presidente da CPI da bombinha. Já com a caveira feita pelos outros colegas, abri os bolsos e despejei o conteúdo bombástico sobre a mesa de cerejeira.

    - É perigoso isso... Você poderia ter machucado seus amigos.

    - Mas não fui eu!

    O direito de defesa não me foi concedido. Era difícil explicar como que alguém com os bolsos cheios de bombinhas não havia sido culpado pelo "atentado a bomba no campinho da escola". Saí da escola com os vermelhos de raiva e com uma frase entalada na garganta: "não fui eu", pensava alto gritando dentro da minha cabeça, "não fui eu, não fui eu"... Em casa, chorei baixinho embaixo do cobertor.

    Ainda na semana passada, li algumas páginas de um livro para crianças, de uma prima de uns 12 anos que estuda nesta escola de nome Imaculada Conceição. Livro que foi indicado por uma professora de literatura, provavelmente com a finalidade ampliar os horizontes dos leitores, aumentar o potencial crítico e criativo entre outros propósitos. O livro terminava assim: "e desta maneira vou seguir a minha vida. Feliz no mais comum dia a dia. Vivendo normalmente, pois isto é a felicidade".

    Acho que este livro foi bem escolhido, está de acordo com o que a escola sempre quis me ensinar. Viver o comum e normal dia a dia. Graças a Deus (não este Deus que vocês tentaram me mostrar) eu fui um péssimo aluno!



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© Luiz Andrioli
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