Ao
ligar a tevê,
o telefone toca. Um diálogo impertinente se inicia:
- Alô?
Atendi, num sobressalto.
- Rafaela?!
Acho que vou morrer!
- Calma,
Letícia. O que aconteceu?
Não
deixo de observar o cenário apocalíptico de um vídeo clipe no canal de música (minha amiga estava com a voz daquele cantor horrendo!).
- Ah,
Rafaela, após dois anos e tantos planos, o Edgar me deixou... Estou na base de calmantes. Não como, não durmo! Só penso nele.
Suspiro,
puxo o telefone para mais perto da janela e digo:
- Letícia,
eu já havia falado para você não se entregar tanto. Homem não gosta de mulher pegajosa...
Observo
os carros passando na minha movimentada rua. Letícia, abalada com o que digo,
retruca:
- Tá
certo, Rafaela. Mas eu só sei amar desse jeito! Só me entregando de corpo e
alma.
- Não,
Letícia. Você se colocou nas mãos dele. O que ele alegou?
Chorando,
minha amiga diz, aos berros:
- Disse
que não me amava mais!! Que não era mais isso que ele queria... Pode? Pode
isso, Rafaela? Nós nos casaríamos neste ano, você sabe.
Sinceramente,
não sei o que dizer à Letícia. Ela sabe que fiz uma outra opção sexual e respeita a minha posição.
- Bem,
Letícia, o Edgar já estava dando indícios de que não queria mais o namoro. Ele pisou na bola várias vezes - disse, com firmeza -, ele nem se
lembrou do seu aniversário! - Letícia só fungava e soluçava do outro lado da linha.
Aproveitei
a deixa e continuei: Quando ele se esqueceu que você completava vinte e um anos o que ele fez? Hein?
- Disse
que estava com a cabeça cheia, pediu desculpas, me deu um beijo cinematográfico e acabamos transando na sala da minha casa...
- É
isso! É isso Lê! Homem é foda, só quer saber de transar. Se você não
souber levar o cara, acaba virando uma prostituta exclusiva dele, nada mais - eu
olhava um casal idoso atravessando a rua com cautela.
- Você
tá querendo me dizer que era só foda, Rafaela? Só isso? Aquele filho da puta falava que me amava!
- Letícia,
pode ser que no começo ele te amasse realmente, mas com o tempo esse amor foi
esfriando e...
- Já
sei, virou só sexo, só foda. É isso, Rafaela?!
- É
- balbuciei, imaginado que Letícia pensasse que eu estava fazendo um discurso
contra o sexo masculino em função de minha posição sexual - mais ou menos!
Você se anulou, Letícia. Virou uma chata! Não saía com a turma por causa do
Edgar. E o que ele faz? Te dá um tremendo pé na bunda!!
- Porra,
Rafaela! Pega leve. Tô sofrendo, desesperada... Será que ele arrumou outra? Será, Rafaela?
- Olha,
Lê, não fique pensando assim. Acabou, pense que o Edgar agora é um
ex-namorado.
Minha
amiga começou a chorar novamente, e, em meio às lágrimas, diz:
- Se
ele quiser voltar, eu volto pra ele. Sou uma besta mesmo. Mas eu volto. Ele é a minha vida...
- Escuta,
Letícia. Você está transtornada agora, é natural. Há um machucado aí. Em pouco tempo, você já estará paquerando novamente...
- Ah,
não. Não quero outro. O Edgar é o homem da minha vida!
- Tá
bom, Lê. Mas e o Léo? Você disse a mesma coisa! - comecei a me
irritar, tirei o som da tevê, enquanto desenroscava o fio da perna da cadeira
próxima à janela. Minha amiga continuava:
- Agora
é diferente, Rafaela. Com o Léo não era sério, eu não pretendia me casar
com ele...
Grande
coisa! - pensei - pra que casar?
- Pois
é, mas você tem que se conscientizar de que o Edgar é também um ex-namorado (na verdade, eles já estavam noivos, um ex-noivo seria o termo mais
adequado) agora. Não há o que fazer.
Com
a voz, rouca, a eterna líder de minha turma (podia imaginar seus olhos verdes irritados) respondeu:
- Eu
vou lá, Rafaela! Preciso ver se tem alguma piranha com ele. Só pode ser outra...
- Letícia!,
gritei, furiosa - ponha na sua cabeça que as pessoas deixam de amar e ponto, não
precisam necessariamente ter outro alguém para isso.
- Impossível
- teimou mais uma vez. Nós estávamos muito bem até a
semana passada. Quero dizer, hum, discutíamos um pouco, mas nada sério.
- Vocês
discutiam diretooo!!!! - perdi minha paciência.
- Mentira,
Rafa! Agora você exagerou. Estávamos numa boa, jantamos a luz de velas num puta motel chiquérrimo! Transamos à beça e ele disse que me amava
demais, que nos casaríamos logo!
- Acorda,
Letícia! Tá na cara que ele disse tudo isso porque vocês estavam num motel. O amor dele já havia acabado. Talvez ele pensasse que o sexo salvaria a
relação, não sei.
Espiei
alguns canais na tevê sem som, evangélicos exorcizavam demônios no canal religioso. - Você tem que aceitar.
- Não
pode ser, não pode ser... Como ele pôde me usar assim?
- Homens,
minha filha. Pensam com o pau.
- Não
seja grossa, Rafaela!! Você já está descendo o nível - gritou, irritada.
- Que
nada, é verdade, ainda bem que não tenho esse problema. Sou lésbica assumida.
- Às
vezes acho que você tem sorte, Rafaela. Invejo isso, esse negócio de ser lésbica e não se importar com a opinião dos outros.
- É
difícil, mas vou administrando. - olho o relógio e já são duas da tarde.
-Tenho muito trabalho, Lê! Vê se melhora. O Edgar não merece alguém sensível
como você.
- Ok,
Rafa! A gente se fala. Vou passar na sua casa para devolver seu CD.
- Vem
sim! Estou esperando. Beijo, tchau!
- Beijão!
(sua voz estava mais animada).
Desligo
o telefone com a certeza de que amo esta mulher cada vez mais.