O Trauma
Sentado na cama, Olavo não conseguia dormir. Os pesadelos o assombravam e, suando frio, pedia à mulher que o acudisse.
Pacientemente, Solange se levantava para fazer um chá de erva-cidreira para o marido apavorado.
Os sonhos de Olavo o atormentavam desde que vira um homem ser estraçalhado nos trilhos de trem da Estação de Osasco. Fazia uns três anos, os tranqüilizantes o acompanhavam. Sonhava com carne moída e, em seu subconsciente, o moído era o homem de Osasco!
Piorava ainda mais quando o pesadelo ensaiava um diálogo mórbido onde sua esposa, despreocupada, moía a mão daquele pobre homem num reluzente moedor elétrico. Só ouvia os gritos desesperados, intercalados àquela terrível pergunta:
- Você quer bolinhos de carne fritos, amor? - perguntava como uma dócil e dedicada esposa. Será que ela não ouvia os gritos e não reparava na expressão de dor daquele mísero homem?
Olavo estava suando. Quem seria aquele homem, coitado, será que se matou?
- Está aqui seu chá, sossegue um pouco.
- Tive outro pesadelo.
- Já era de se esperar. Há mais de um mês que você não aparece na terapia...
Olavo engolia aos poucos o chá. Estava trêmulo. Três anos se passaram após aquele acidente e a cena ainda rondava a maior parte de seus pensamentos.
Já não conseguia mais fazer amor com Solange. A idéia de prazeres carnais o enojava. Parou de comer carne desde o fatídico dia. Começou a fazer terapia quando destruiu, com fúria, a terceira moedora elétrica.
Solange, sempre tolerante, servia ao marido fielmente. Mesmo com tantas neuras, jamais traíra seu esposo. Vagas lembranças dos tempos em que não viviam de dieta vegetariana, e se esbaldavam nas churrascarias. Lembranças efêmeras e embaçadas dos tempos em que faziam sexo. Sim, sexo. Carne, carnal. Momentos loucos de êxtase que, como aquele desconhecido, foram estraçalhados...
A esposa dedicada via seu marido definhar. Cada dia mais pálido e abatido. Não agüentava mais aquela situação. Mas compreendia, afinal, para sua família, um casamento deveria durar até que a morte os separasse. A morte os separou, de fato. Porém, os dois continuavam vivos.
Olavo ainda procurava saber, vez por outra, quem era aquele homem esmiuçado no trilho do trem. Mesmo morando em Santos, ia de carro fazer a sua investigação em Osasco. Uns diziam que era um indigente bêbado, outros que se tratava de um pai de família muito endividado.
Mas isso de nada importava.
A verdade é que Olavo desde então só come bolinhos de espinafre.
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