O futuro atrás de mim


Do vidro embaçado do T1 Ana observava o tempo. Era uma típica tarde de inverno, com direito a chuva fina e constante, neblina porosa e um vento Sul direto da Argentina, que parecia cantar uma espécie de mantra. Da janela era possível ver as pessoas, fugindo da chuva e do vento. Tudo em vão, pensou ela. Não se pode fugir de certas coisas, por mais que se queira, disso ela sabia bem.

O consultório do Doutor era como todos os outros consultórios de psicólogos do mundo. Pequeno, com cores sóbrias, cadeiras fofas, quadros estranhos na parede. Ana entrou, viu que chegara um pouco cedo, iria ter de esperar sua vez. O Doutor abominava a idéia de ter uma secretária, achava que seus pacientes devem agüentar sozinhos uma sala de espera. Um pouco cruel talvez. De vez em quando caia algum relâmpago, e ela se maldizia por ter largado sua xícara de chá, sua cama quentinha. Finalmente a porta abriu. Lá dentro tudo parecia ainda mais estranho e aconchegante. "Cara de útero", ruminou o lado implicante de Ana.

- Oi, Ana, como tem passado? Era ele, David, o doutor.

- Estou em crise. E estive pensando.

Ana adorava dizer isso, só pra testar as reações do Doutorzinho, a quem carinhosamente chamava de Doktor.

- Por favor Ana, nada de subjetividade, seja mais específica.

Ser mais específica? Pelo que pagava, em dólar, Ana se sentia no direito de ser o menos objetiva e específica possível. Mas resolveu ser boazinha.

- A famosa crise dos 40 Doktor, resolvi antecipar um pouquinho as coisas.

- Nada mal pra quem ainda não chegou nem aos trinta.

- Precoce, sempre fui. Ler Proust e Machado de Assis com onze, trepar com treze, fugir pra Bahia com quinze, lembra?

Para Ana o futuro amedrontava. Porque era um mal necessário. Foto Polaroid. Irreversível antes mesmo de acontecer, de se tornar visível, palpável. Como evitar equívocos? E o Doktor queria que ela fosse objetiva. Era de enlouquecer!

- Ana, até agora tu não falou nada que faça algum sentido.

- Como não? Doktor, o senhor está particularmente desconcentrado hoje. Mas eu repito, sem problemas. É o futuro. A merda do futuro. Já ouviu falar como o tempo é cruel com as mulheres? Já viu uma mulher de trinta sozinha num bar? Como os caras vêm comê-las por bondade? Já viu como os homens envelhecem e o charme rude fica ainda mais rude por conta da nossa fixação paterna? E eu, Doktor? Vou assistir a tudo isso em paz, dizendo, É isso mesmo rapaziada, o que importa é que a gente se ama?

- Isso não importa?

- Importa, mas quanto? Eu quero aqui e quero agora. Eu não posso ficar esperando por uma resposta, Doktor. O tempo está atrás de mim, pior que cobrador. Acho que preciso que alguma coisa aconteça. Sabe emoção barata, inexplicável, sem nexo, no sofá da sala? O que o senhor acha?

- Não sei bem ao certo, mas parece coisa de crise da modernidade, e eu ainda sou pré-vitoriano.

(Doktor tinha a irritante mania de começar tudo com "não sei bem ao certo". Para um cara com um currículo do tamanho de um Scania ele era até bem modesto às vezes. Ou então estava apenas tentando aparentar um pouco de ignorância, diminuir as possíveis distâncias entre eles.)

- Pré-diluviano. E modernidade é uma coisa muito complicada, até para o senhor, não é mesmo?

- Como tu te sente, explique melhor.

- Oh, Doktor, esse é o tipo de pergunta que vocês levam anos aprendendo lá na escola onde eles ensinam psicanálise e como cobrar milhões de dólares de trouxas em crise? Como eu me sinto? Depende, de várias coisas. O senhor nem imagina como nós, mortais, somos indecisos, Doktor. Ou será que o senhor já leu algo a respeito? O senhor saberia se ao menos vivesse neste planeta e fosse ao cinema.

- Fim da hora.

- Como o senhor sabe? A areia da ampulheta já acabou?

- Fim da consulta. Eu controlo a hora pelo sol.

- Mas hoje tá chovendo! Ana tentava argumentar com "seu" Doktor. Ainda tentou um último recurso:

- O senhor já ouviu falar em Lacan?

- Muito complicado. Não vem com figurinha.

- Doktor, psicólogos não tem senso de humor.

- Fim da hora - repetiu David, o Doutor-Doktor, e dava pra ver que ele não estava brincando.

Fora do consultório, chuva que ela tentava evitar caminhando depressa, milhares de guarda-chuvas apontados direto para os olhos, cercando por todos os lados. Ana evitou marquises e andou pelo meio da rua, fugindo dos ônibus e táxis. Sair do consultório era sempre a mesma coisa. Alívio misturado com medo de tudo o que estivesse à espreita lá fora. Já que dentro do consultório era tudo piração, brincadeira.

Já dentro de outro T1 (afinal, o que será este T?), Ana colocou o nariz bem perto do vidro, pra ele ficar embaciado, insinuando mudança de tempo na narrativa, flashback com lente 18, muito filtro e música de fundo, faltando apenas entrar ela vestida de menininha, saia plissada, correndo do carro do pai para a entrada do Instituto de Educação, bem em frente passava o ônibus. O futuro, pensou Ana. O futuro.


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© Cristiane Lisbôa
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