Para uma barata escondida no meu quarto


Tem uma barata no meu quarto,
Em algum canto da bagunça arrumada do meu quarto ela se esconde.
São quase duas da manhã;
Uma estúpida barata
Imaginária/real
Se esgueira por detrás de algum dos meus livros.
Será que está lendo O PRÍNCIPE de Maquiavel?
Eu nunca li, só está aqui de enfeite.
E se ela ler A METAMORFOSE de Kafka?
Certamente entrará em crise existencial.
Existe certamente uma barata,
Possivelmente em crise,
Em algum lugar da bagunça arrumada do meu quarto.
Se o mundo acabar amanhã,
Não vou deixar nada em testamento para ela.
Se ela conseguir sobreviver...
Que seja sem meu som, meus discos e fitas,
Meu telefone e meus livros. Seja por seus próprios meios.
São duas e dez da manhã,
E uma estúpida barata se esconde em algum canto;
Possivelmente ao meu lado.
Não consigo dormir!
Uma fétida barata me tirou o sono
......... Porra!! São duas e quinze e ela não aparece!
Me sinto como um namorado, traído...
Com rosas (no caso um chinelo) na mão,
Esperando a amada,
Uma baratona cascuda
Que certamente encontrou algo melhor para fazer.
Será que ela tá visitando algum país do meu globo?
Além da estúpida barata desaparecida,
Apareceu uma estúpida muriçoca
Que quer (mesmo contra o ventilador) me picar.
Uma barata, uma muriçoca e todas as luzes acesas,
(não sou besta de apagar)
rezem uma prece pela falecida muriçoca
(acabei de matá-la).
Só falta a baratona cascuda que está escondida...
... Outra muriçoca... Sacanagem... Isso é sacanagem!!
Um quarto com Baygon, muriçocas à vontade,
Uma barata escondida, Deus sabe onde,
Um ventilador ligado e todas as luzes acesas.
Duas muriçocas a menos, um relógio marcando duas e meia e
Uma menina asmática com uma caneta de florzinha na mão.
Isso definitivamente não é uma poesia!!
Menos outra muriçoca (EU 3 X MURIÇOCAS 0),
Vou chamar o gato para dormir comigo.
A barata que se faça de besta,
Eu a esmago depois que terminar a não-poesia em sua homenagem.
E quando amanhecer, não sairá em nenhum jornal local
Que uma estúpida menina asmática
E seu terrível gato assassino mataram friamente
A única sobrevivente do mundo pós bomba-atômica.
Uma baratona cascuda, culta e letrada
Que lia Maquiavel, Kafka, Gabriel Garcia Márquez, João Ubaldo
E Jorge Amado
Enquanto visitava todo o mundo no meu globo.


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© Maria João Amado - 12/05/93
pimentinhaz@hotmail.com