A Propósito de Exagerar


Hoje, pela primeira vez em muitos anos, pensei em você de novo... ou talvez, melhor ainda, pensei em você consciente do que estava fazendo, já que nunca deixou de estar em meu coração. Fiquei surpresa com a suavidade com que sua imagem voltou tão facilmente à minha memória; não mais aquela dor pungente, fina, como se uma agulha em brasa penetrasse na carne do peito, no lado esquerdo, mas apenas a saudade cálida, a brisa quente dos sentimentos empoeirados.

Poeira que retirei dos meus velhos cadernos onde copiei, ano após ano, as poesias que me marcavam, poesias que traziam você mais para perto de mim. Das velhas cartas que te escrevi e que nunca enviei. Da agenda onde rabisquei teu telefone, e que nunca liguei. Onde estará agora? Como estará agora? Com quem estará agora... Perdi o direito de fazer essas perguntas; nunca tive o direito de fazer essas perguntas.

Imagino que seja mais feliz do que eu. Embora eu finja ser feliz tão bem: eu finjo não te amar mais, eu finjo que nem me preocupo com o fato de que estou sozinha, finjo, finjo, finjo... Ninguém vê as lágrimas que choro à noite, baixinho, sozinha no meu quarto. Ninguém entende por que gosto tanto da chuva, do vento, do escuro, do silêncio. Ninguém entende por que passo tantas horas na frente desse computador. Substituto de vida, eu diria. Válvula de escape. Anestésico. Funciona bem, na maioria das vezes, sabe? Me faz pensar que nunca te conheci; no melhor dos casos, que te esqueci.

Tenho conhecido tanta gente interessante! Tenho entrado em contato com realidades tão diversas da minha! Hoje você não me reconheceria mais: consigo dizer tudo o que penso, ampliei meus conhecimentos, articulo minhas opiniões. É verdade que perdi outras coisas nesse processo: por não ter praticado melhor, não tenho mais a fluência das palavras de que tanto usou e abusou, a cadência melódica de que tanto gostava. Por muito tempo, escrevi apenas para você. Por muito tempo, escrevi para ninguém.

Tenho lido textos, crônicas, maravilhosos... Eu gostaria que os lesse também. Tenho certeza que iria adorar. Esses textos me despertaram o vício adormecido, isento daquele ardor com que te escrevia. (Mas isso é coisa que nunca vai saber... Não leu aquelas cartas, não irá ler essa, tampouco). Estou tentando retomar o prazer de escrever, do modo como me acostumei: para quem eu amo. Mas me tornei tão cínica, pragmática, cética... As palavras saem duras, como alguém que se desacostumou a andar. Ainda estou dispersa, os pensamentos voando para todos os lados, sem me centrar em nada, a não ser o fato de que eu espero, um dia, encontrar um homem a quem eu possa olhar e não te ver nele, a quem eu ame com tal força e intensidade que sua lembrança não torne a me assombrar as noites. Um homem que vai me amar como você não me amou, para quem eu seja a mulher única. Um homem que vai me olhar como eu sou, para quem não precisarei usar máscaras. O homem que dirá: "Essa é a minha mulher, com quem vou dividir o resto dos meus dias, os meus pensamentos".

O homem que desejarei todos os dias, e cuja simples imagem alegre meus momentos que se tornarão cada vez mais apenas dele. O homem que me fará escrever textos de amor e esperança, de desejo e poesia. O homem para quem não precisarei me calar, nem me esconder, nem fugir.

Sim, nem só de dor foram os nossos momentos... Eu me lembro bem de como nos entendíamos sem muitas palavras. De quanto fomos idealistas, de quanto concordávamos em tudo. Mas eu queria mais, muito mais, do que pôde me oferecer. Amizade, apenas, seria muito pouco para quem te amava tanto... e que continua a te amar ainda.


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© Luciana Naomi Hikawa
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