Céu e Inferno


Olás, Todos...

Quem sou eu? Boa pergunta, muito boa... Quisera ter a resposta. Será que um dia saberei? Eis outra boa pergunta. Taí uma coisa que sempre podem dizer de mim: eu sei perguntar. Um dia aprendo a responder. E já que não sei quem, vamos partir para o quando, o onde, o quê e o como; a parte do por que também fica para outra hora.

Que peças compõem uma pessoa? Que pistas posso deixar a quem queira me conhecer, como um Sherlock Holmes ou melhor ainda, como Miss Jane Marple de Agatha Christie, para quem a natureza humana é a mesma em qualquer lugar, seja numa metrópole, seja num povoado, e qualquer pessoa sempre lembra outra que ela conhece? Vejamos.

Eu nasci há dez mil anos atrás; pelo que me lembro, mas pode ter sido um pouco antes ou um pouco depois, não tenho certeza. Ao contrário do Raul Seixas, para quem não tem nada neste mundo que ele nao saiba demais, ainda tenho muito o que aprender. Bem, por isso acho uma vida apenas muito pouco, irrisório demais, curto demais. Viver cem anos? Hum, talvez não seja esta a solução. "Who wants to live forever?", perguntava Freddie Mercury. Não se preocupe que eu não vou filosofar: minha irma caçula é quem estuda filosofia lá na Unicamp, eu apenas divago...

Também não fiz maternal, jardim de infância, pré-primário. Na minha época a gente já entrava direto no primeiro ano do primário, mas só fui fazer catecismo no ano seguinte. E eu fiz a primeira comunhão, antes disso fui batizada, tudo dentro do protocolo da Igreja Católica Apostólica Romana. Não confirmei a comunhão (ou será o batismo?): escapei da crisma. Tenho experiência com a tolerância religiosa, minha família é ecumênica desde os avós: um é xintoísta, uma Seicho No Ie, dois budistas, pai católico, mãe kardecista, e isso para não mencionar tios ateus, tias agnósticas, protestantes, corintianos, etc. Hoje não freqüento mais a Igreja, mas trago boas lembranças daqueles tempos.

Minha primeira professora foi a dona Nair, e eu estudei pela cartilha Caminho Suave. Foi um baque descobrir no ano passado que esta cartilha estava na lista dos não-recomendados pelo Ministério da Educação... Os pés do meu ídolo eram de barro? Os alicerces da minha torre ruiram? Será que eu aprendi a ler? De uma hora para outra tudo o que eu sabia foi reduzido a pó, a nada, a uma canetada de um tecnocrata do Planalto Central.

Comecei a ler livros "adultos" muito cedo: com quase nove anos eu devorava Sabrinas, Júlias, Biancas, Barbaras Cartland. Foram milhares, milhares de pulp fictions. Faroestes de bolso, contos de terror, contos "picantes". Gibis, variedades, fotonovelas. Férias escolares eram sinônimo de visita aos pais da minha mãe em Pompéia: Seleções do Reader's Digest, Enciclopédia Barsa, Enciclopédia Trópico, a coleção completa do Malba Tahan, doce de feijão, ovo frito com gema mole e pão molhado no shoyu, migalhas para as carpas. Tudo isso, claro, nos intervalos entre encher a paciencia do Juca pra ele levar a gente a andar de cavalo e ajudar o pessoal a catar ovos: meu avô era granjeiro. O trator da granja tinha uma carreta engatada atrás, para carregar cana pro gado [umas tres vacas e um touro: nenhum latifúndio improdutivo que o MST pudesse invadir, se existisse naquela época]. Era um Ford 54 cinza, tão simples de operar que até uma criança dirigiria - e dirigiu. Aliás, e dirigiram. Era só juntar meia dúzia de primos que ou meu avo ou um dos tios jogava a molecada na carreta e revezava um pirralho na direção . Cansei de ter os joelhos esfolados porque um dos anjos não tinha força suficiente pra desviar o volante das ribanceiras cheias de mato, carrapichos, raízes de árvores; e voce já viu criança sentar numa carreta, comportadinha, com as pernas recolhidas para dentro? Pois, eu tambem não. O bom de passar as férias na granja era o contato com os bichos.

Eu gosto de gatos. Gosto? Bom, essa palavra é insuficiente... Amo? Não. Adoro? Tambem não. Invejo e me identifico. Isso, ou algo parecido. ("O gato possui beleza sem vaidade, força sem insolência, coragem sem ferocidade, todas as virtudes do homem sem vícios." Lord Byron, poeta inglês). Invejo a graca, a flexibilidade, a atitude cool, blasé, a independência. Não é à toa que os egípcios antigos veneravam esse animal.

Gosto de mitologia. Egípcia principalmente. Assistia o Enigma todo santo sábado na Rádio e Televisão Cultura, RTC. Por onde será que anda Cornélia Herr? A última vez que a vi foi num comercial de inseticida. E Glauce Graieb que apresentava o Vestibulando? Cassiano Ricardo continua no teatro, acho...

Sou péssima com nomes: nomes de pessoas, nomes de bandas, títulos de livros, de filmes, de músicas. Com isso fiquei craque em sinopses: "Você assistiu àquele filme com a ... (plec, plec, plec) aquela atriz que fez o ... (plec, plec, plec) com aquele ator, o ... (plec, plec, plec), o de bigode, lembra?? Aquele em que ele morre no final??"

Por falar em filme, um que eu sempre assistia na Sessão da Tarde era um com a Sophia Loren e o busto dela. La Loren era uma pobretona (claaaro) por quem um nobre se apaixona, mas para que se casem ela precisa vencer uma competição de lavar pratos sem os quebrar (!!!). Mas, lógico que existe a vilã, aquela que parte os pratos da pilha da Loren com a pedra do proprio anel. É claro que existe o aliado da pobre Loren que descobre a trapaça e conta ao nobre, e, óbvio ululante, eles se casam e vivem felizes para sempre, depois de castigar a malvada. Junto com os filmes do Jerry Lewis sem o Dean Martin, esse era o meu preferido.

Eu assistia aos Muppets (adoro a Miss Piggy), Vila Sésamo (grande Garibaldo!), Sítio do Pica-Pau Amarelo (saudade da Cuca...) e a masterpiece: A Princesa e o Cavaleiro, de Tetsuka Ossamu. Foi a partir dos desenhos japoneses que percebi o quanto eu gosto de olhos. Não me importa a cor, não me importa formato ou tamanho, sou tarada por olhos. Detesto fotos de gente com óculos escuros ou olhos baixos, dissimulados. Vem daí a minha birra com a Capitu do Machado de Assis.

E assim, como num círculo vicioso, voltamos a livros, literatura, e o subproduto mais prazeroso dessa atividade lúdica: escrever. Poderia ficar por horas a fio escrevendo, as palavras escorrendo como sangue das pontas dos dedos, mas o fim chegaria tarde e talvez não encontrasse tudo pronto.

Esta sou eu. Esta é uma parte de mim.


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© Luciana Naomi Hikawa
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