Ser, Ter, Estar


"Assim eu quereria o meu último poema. Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais. Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas. Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume. A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais
límpidos. A paixão dos suicidas que se matam sem explicação".

Manuel Bandeira, O Último Poema 


Para J.D.R.



Ser, ter, estar. Há muitos anos o mestre de olhos cansados tentou ensinar a um grupo de pré-adolescentes que estes eram alguns dos verbos de ligação. Tarefa ingrata; alguns decoraram a matéria, nenhum entendeu. Apenas um casal de quase-crianças intuiu o seu sentido, na descoberta dos valores mais marcantes: a luta cívica, a amizade, a abstração dos preconceitos. Que ligação [poderia alguém imaginar] teriam aquela menina muito quieta e muito tímida, e o menino mais velho e mais forte, que se encontraram pela primeira vez como quem reencontra o amigo que não vê desde a véspera? Que espécie de reconhecimento mútuo houve entre eles? Aquilo acendeu uma centelha de vida nos olhos do mestre, reavivou o prazer adormecido. Com carinho e paciência, levou o estranho casal ao mundo das letras, da rígida gramática ao discernimento dos textos. Foi padrinho das cumplicidades daqueles dois que, dia após dia, se tornavam apenas um. A coragem dele compensando a timidez dela. O raciocínio lógico dela completando a impetuosidade irrefletida dele. Ambos lutando pelos mesmos ideais, fazendo as mesmas descobertas. O tempo já não era mais medido em dias ou horas, mas em palavras. Não havia silêncios ou distâncias entre eles. Com que prazer a menina esperava o amigo todos os dias pela manhã, no portão de casa, para ambos caminharem juntos por meia quadra.  As tardes eram dedicadas um ao outro: ele acompanhando as aulas de religião dela, ela assistindo as de educação física dele. Era mais do que cumplicidade, eram a mesma e única pessoa. Foram tão intensamente unidos, e não perceberam que se separavam. Pouco a pouco, dia após dia, e quando finalmente houve a ausência física, nenhum se apercebeu. Eram verbos intransitivos, sem perguntas, sem dor, sem consciência.

Hoje, com o mesmo cansaço nos olhos, assimilei finalmente o sentido da expressão ''de ligação''. A menina foi soterrada por perguntas sem resposta, por dores obscuras, procuras inócuas e sonhos desfeitos. O velho mestre já não tem a aura brilhante a seus olhos, não é mais o herói invencível idealizado.

O menino... tampouco existe mais. O peso do homem marcado pelo tempo foi mais do que ele pôde suportar nessa vida, e numa tarde quente de domingo aquela alma solitária esqueceu a coragem que conquistou a menina e foi buscar as respostas noutra dimensão. Partiu sem adeus, sem explicação, deixando apenas a lembrança cálida no coração dos que o amaram sem saber.


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© Luciana Naomi Hikawa
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