Um Conto de Fadas sobre Amor e Destino





                        Era uma vez dois irmãos, filhos de um velho pescador. A família vivia numa cabana à beira de um rio que cortava a floresta da aldeia próxima. O irmão mais velho era alto e magro, e também moreno como o povo cigano que de vez em quando aparecia por ali, vendendo sonhos e bugigangas. Os olhos dele quase nunca sorriam. O mais novo tinha cabelos da cor do sol, e olhos como o verde das folhas, e seu riso era fácil como o das fadinhas da floresta.

                        O irmão mais velho era um cavaleiro do rei, e viajava muito pelos mais diversos lugares, lugares que o povo simples da aldeia às vezes nem acreditava existirem. O mais novo seguira a profissão do pai, sendo também um pescador. Tirava do rio o que precisava, e o que restava ele vendia aos aldeões e viajantes. Com o dinheiro que conseguia, estava construindo uma nova casa, onde iria morar após se casar com a sua noiva, a Rainha da Primavera eleita no baile anual da aldeia.

                        Após uma longa viagem com o exército do rei, o mais velho havia acabado de retornar à aldeia. Sua velha mãe, saudosa e feliz, preparou um farto almoço para recebê-lo, e toda a família se deliciou com os pratos, ouvindo do soldado que retornara as estranhas e belas histórias de suas andanças.

                        Durante o almoço, o irmão mais novo notou que o outro usava ao pescoço uma espécie de amuleto. De um cordão de couro, pendia um intrincado símbolo em prata envelhecida, que descansava como que adormecido no peito do seu irmão.

                        Quando todos terminaram a refeição, os dois irmãos saíram para passear ao longo do rio. O mais novo, efusivo e brincalhão como sempre, ia contando ao irmão as novidades da aldeia: que moças haviam dormido com que rapazes na noite da Festa da Fogueira, que bebês os duendes haviam raptado, que brigas as mulheres haviam tido com seus maridos. O mais velho ouvia em  silêncio, mas um leve brilho de sorriso que dançava em seus olhos demonstrava a satisfação que ele sentia em voltar para casa.

                        Finalmente, eles chegaram ao recanto que era o seu preferido desde a infância: à beira do rio, uma velha árvore estendia os seus galhos retorcidos, formando uma convidativa sombra por sobre a margem. Suas raízes fortes desciam para beber nas águas transparentes do rio.

                        Os irmãos se sentaram ao pé da árvore, e puseram-se a jogar pedrinhas de encontro às águas. De repente, o mais velho perguntou ao outro, sorrindo:

                        - Irmão, por que usas esse amuleto em teu pescoço? Nunca o vi contigo antes. Onde o conseguiste?

                        - Ele me foi dado por uma velha e bondosa feiticeira que encontrei em minhas viagens - ele respondeu. - Ela me garantiu que este amuleto me levaria ao meu grande amor, e por isto eu o trago sempre comigo.

                        O outro soltou uma grande risada.

                        - Que bobagem! - caçoou. - Eu nunca usei um amuleto, e mesmo assim, encontrei o meu grande amor, com quem vou me casar tão logo nossa casa esteja pronta. Tu também não precisas disto para encontrar o teu! - e com estas palavras, tomando tudo aquilo por uma grande brincadeira, o inconseqüente rapaz arrancou o amuleto do irmão e o atirou no rio. Num piscar de olhos, a correnteza forte e veloz fez sumir o amuleto, em um turbilhão de água e espuma.

                        O cavaleiro, que já havia enfrentado tantas batalhas contra os mais temíveis inimigos, sem nem mesmo alterar as batidas do seu coração, dessa vez sentiu o sangue paralisar-se nas veias.

                        - Como ousaste! - gritou, fora de si. - Agora jamais acharei o meu amuleto, nem tampouco o amor que espero em minha vida!

                        Dito isto, deu as costas ao irmão e rumou de volta à cabana dos pais, ignorando as súplicas e pedidos de desculpas que este lhe lançava. Amargurado, no mesmo instante o soldado juntou seus pertences, beijou o pai e a mãe, selou o seu cavalo e partiu para o castelo do rei, em busca de uma nova missão.

 

                       
                      Seis primaveras se passaram antes que o cavaleiro resolvesse retornar à sua aldeia. Sabia por intermédio de mensageiros e viajantes com quem cruzava que o seu irmão realmente se casara com a Rainha da Primavera, e que já havia gerado nela três crianças fortes e saudáveis. O negócio de pesca também prosperara, e ele agora era um dos homens mais ricos da aldeia. Ao ouvir essas notícias seu rancor só aumentara, não pelas riquezas que seu irmão possuía - pois isso ele também havia conseguido, entre saques, soldos e recompensas - mas porque após todos esse tempo, sem o amuleto, ele não havia conseguido encontrar o seu amor, e um soldado, depois de certo tempo, sente necessidade de ter uma casa, e mulher e filhos para quem voltar. 

                        Assim ele ia pensando em seu cavalo, enquanto se dirigia de volta à aldeia, mais uma vez percorrendo trilhas que há muito ele não via, mas de que se lembrava tão perfeitamente como se houvesse um mapa encravado em sua memória.

                        A certa altura do caminho, ele viu que uma nova trilha tinha sido aberta em direção à sua floresta. No início dela, uma placa de madeira exibia uma seta, e sobre ela o nome de duas ou três aldeias, incluindo a dele.

                        "A aldeia cresceu mesmo”, ele pensou. “Tornou-se importante a ponto de ser preciso haver novos caminhos para os viajantes”.

                        Ele decidiu seguir por aquela nova estrada, explorando um trecho da floresta que ele talvez ainda não conhecesse, e passando por povoados recém-estabelecidos. Mesmo por aquele caminho diferente, tudo parecia conhecido: grandes e frondosas árvores, mais antigas que a mais antiga das aldeias; pássaros, esquilos e alguns dos Pequenos da floresta saltitando furtivamente aqui e ali.

                        Aquele era um ambiente acolhedor para ele. Começou a sentir uma paz que há muito não conhecia. De repente se deu conta de que, já há algum tempo, adentrara a floresta cerrada e vinha escutando um barulho familiar, embora a princípio não conseguisse definir o que era. 

                        A compreensão veio num estalo: era o som de águas se precipitando sobre pedra e cascalho; e algo mais. Pela localização, ele adivinhou que ali por perto deveria ser o local onde o rio da sua aldeia desembocava: uma cachoeira. E havia esse outro som...

            À medida em que foi se aproximando, ele percebeu o que era: alguém cantava. Era uma voz maravilhosa, e por alguns momentos ele ficou amedrontado, pois dentro do seu peito, sem que ele pudesse controlar, a melodia ecoou; estaria ele sendo vítima do encantamento de alguma fada das águas? Mesmo esse pensamento, no entanto, não o deteve por mais que alguns segundos. A curiosidade (e a música dentro do seu peito) o convenceu a seguir em frente.

            Depois de mais duas curvas do caminho, ele avistou a cascata, que ia cair ao fundo de uma descida de pedras, rodeada por altas árvores. E lá embaixo, nua sob as águas da cascata, ele a viu.

            Apressou-se a descer do cavalo e amarrá-lo a uma árvore, recomendando silêncio. O animal, acostumado às emboscadas de que tantas vezes participara com seu dono, entendeu a ordem de imediato.

            O cavaleiro chegou o mais perto que pôde sem que houvesse perigo de ser descoberto. Viu com alívio que, apesar da beleza deslumbrante, da altura e dos membros tão compridos, a mulher não era uma fada: sua pele, branca, não reluzia com aquele brilho esverdeado que tinha a pele das garotas encantadas da floresta; seus olhos eram mais azuis do que o céu, mas tinham um brilho decididamente humano, e, fator decisivo, ele não avistava nenhum par de asas de borboleta brotando daquelas costas. Ao invés disso,  por elas descia uma outra cachoeira, esta de cabelos dourados e lisos como fios de seda.

            Ele reconheceu a música que ela entoava. Era uma canção antiga, daquelas que só as mulheres aprendiam, e que só as mulheres podiam cantar com tanta beleza. Do seu esconderijo, viu que ela terminara de se banhar, e começava a escalar as pedras em direção contrária à dele, até chegar a uma grande rocha plana onde batia o sol, e onde estavam, estendidas, as roupas da moça.

            Ele riu baixinho quando ela, com frio, começou a dar pequenos pulos e gritinhos agudos, abraçando a si mesma para se aquecer. Àquela altura, ele já sabia: era ela. A mulher que esperara, a mulher com quem vivia sonhando mesmo sem nunca tê-la visto.

           Mas então uma imagem veio à sua cabeça, nítida e destruidora, uma imagem que o vinha perseguindo desde a última vez em que visitara a sua casa: seu amuleto girando no ar contra o céu azul, os raios do sol provocando faíscas na superfície prateada; e em seguida atingindo as águas velozes do rio, confundindo-se com seu reflexo de prata e perdendo-se para sempre.

            "Melhor farei eu se for embora”, pensou. “Porque eu a amo sem nem mesmo saber quem ela é, e ela jamais irá me amar. Não posso atrair nenhum amor, uma vez que não tenho mais meu amuleto”.

            Com esse pensamento, sem nem ao menos um olhar de despedida, o soldado virou as costas, montou o seu cavalo e pegou novamente a trilha, continuando seu caminho para casa.

            Mal havia se afastado da cascata, ouviu:

            - Senhor!

            Prendeu a respiração imediatamente, pois sabia que a voz que o chamava era a mesma que, há poucos momentos, ele ouvira cantar aquela linda canção sob as águas da cascata.

            Era ela.

            Ele puxou as rédeas do cavalo, mas ainda não teve coragem de olhar para trás.

            - Senhor! - ela gritou mais uma vez. - Senhor, por favor, espere um pouco!

            Finalmente ele se voltou. Viu que ela vinha correndo ao seu encontro, suspendendo a longa saia para impedi-la de roçar o barro do chão. Seus pés estavam descalços e eram muito brancos e delicados.

            De repente ela estava ali, bem ao alcance dele. A proximidade o emudeceu; ele ficou sobre o seu cavalo, olhando-a sem uma palavra, esperando que ela falasse. A luz do sol batia no rosto da moça, fazendo-a apertar os olhos de um jeito engraçado, quase infantil, ao olhar para ele. Seu cabelo estava emaranhado pela corrida, e descia-lhe até a cintura em brilhantes mechas espalhadas.

            - Desculpe-me a ousadia, senhor - ela sorriu, de olhos baixos. - Vejo pela sua capa que é um cavaleiro do rei, e não deve ter tempo a perder com aldeãs descalças e mal-vestidas. Mas peço que seja caridoso e me permita ir com o senhor em seu cavalo até minha aldeia, pois o chão é quente e meus pés ardem.

            - Seria um prazer, senhorita - foram as únicas palavras que ele conseguiu  proferir, e desceu do cavalo para ajudá-la a montar.

            Com um gesto gracioso, ela recolheu os longos cabelos que caíam pela frente do vestido, enrolou-os num caracol atrás da cabeça e prendeu-os com um galhinho fino.

            E então uma visão explodiu nos olhos do cavaleiro, fazendo-o quase perder os sentidos: no colo da donzela, emitindo faíscas ao sol, jazia nada mais nada menos do que o seu amuleto perdido há tanto tempo. Ele se encaixava tão bem no espaço entre os seios dela que parecia nunca haver estado em outro lugar que não ali.

            "Talvez seja um igual”, sua mente tentou enganá-lo. Mas seu coração, mais uma vez, sabia a verdade. Sua voz não tremeu quando se dirigiu a ela:

            - Este amuleto que usas, onde o conseguiste? Quem o deu a ti?

            Ela sorriu; levou a mão ao amuleto no fim do cordão de couro e ergueu-o, encostando-o em seus lábios e depois soltando-o.

            - Ninguém o deu a mim, senhor. Encontrei-o agora há pouco, quando me banhava na cascata. A correnteza do rio deve tê-lo levado até lá.

            Primeiro ele hesitou; mas então levou sua mão até o amuleto, tocando-o suavemente com os dedos. Depois encarou-a sorrindo de leve. Pegou-a pela cintura e elevou-a até a sela do cavalo. Em seguida, o montou.

            Dentro do seu peito algo recomeçou a cantar.

            Agora, tudo estava claro.


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© Marcela Catarina Leite Marques
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