Jack e Allie


Conto inspirado em personagens criados por Neil Gaiman, Alan Moore e Garth Ennis.


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- E aí, Lucien? Dá pra dizer o que foi que aconteceu desta vez?

Mervin está apoiado no seu esfregão, um balde d'água a seus pés, e, como sempre, tem um cigarro pendendo do canto do que se faz passar por sua boca. Uma comprida cinza na ponta ameaça cair enquanto ele fala.

- Receio que isso não seja da sua conta, sr. Mervin - responde Lucien, secamente, sem nem mesmo levantar os olhos do grande caderno em que cataloga as últimas aquisições da sua Biblioteca.

(Livros de Sangue XIV, por Clive Barker - "Contos sonhados e não lembrados. Um médico que sonha com um tumor em sua perna, e o tumor o informa sobre os números que serão premiados na loteria; um prelúdio amoroso peculiar entre um cadáver que está para ser cremado e outro que está para ser enterrado; uma freira que...".)

- Tenho certeza de que só pode ser por causa de mulher de novo - continua Mervin, aparentemente sem se dar conta de ter recebido uma resposta nada amistosa - quando ele fica assim, é sempre por causa de mulher.

Lucien revira os olhos. Ajeita seus óculos na ponta do nariz. Lança um olhar de profundo desprezo em direção a Mervin. Mervin começa a falar de novo. A cinza do cigarro, agora ainda mais comprida, finalmente cai no chão. Uma pontada de dor quase física atinge Lucien como um relâmpago. Seu olhar cresce, ganhando todo o seu rosto num esgar de completo nojo.

- Vou te dizer, Lucien - Mervin continua - é muita cachorrada por aqui. Um tal de deixar mulher, brigar com irmão, matar filho, condenar namorada ao Inferno...vou te dizer! Se alguém no mundo soubesse a zona que é a vida da entidade responsável pelos sonhos...

Lucien continua tentando ignorar Mervin e prosseguir sua catalogação.

(Terríveis Bençãos, por Neil Gaiman e Ariano Suassuna - "O Segundo Advento está para acontecer. Mas Jesus agora nasceu em Nova York, negro, e, desavisado, está prestes a se tornar traficante de drogas. Apenas Chicó e João Grilo, em sua primeira missão internacional, serão capazes de guiá-lo para o seu verdadeiro caminho".)

- Sr. Mervin, eu agradeceria imensamente se me fizesse um favor. Vá ver se estou na esquina, sim?

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Tempestade, é claro. Inúmeros rostos de pesadelos surgem e desvanecem contra o céu muito escuro. Morpheus está sentado numa rocha, já completamente encharcado, embora pareça não se incomodar muito com isso. Matthew, o corvo do Sonhar, empoleirado no seu ombro, escuta-o desabafar.

- Amigo Matthew. Agora tornou-se óbvio que realmente aconteceu. Fontes confiáveis me informaram. Não posso, não devo mais confiar em Alissa. Como, como ela pôde pensar que me trairia aqui, no meu próprio reino, em meus domínios, e eu não ficaria sabendo?

Morpheus desiste de falar. Enterra as mãos nos cabelos molhados, a cabeça baixa, um nó negro de desespero e ira contorcendo-se dentro dele. Lágrimas escorrem pelo seu rosto. Não se misturam com a chuva. São mais densas, têm um cheiro peculiar. Matéria para pesadelos.

- Traga Fiddler's Green a mim, Matt - ele diz, incisivo - preciso esclarecer esta história.

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Fiddler's Green é recebido na sala do trono. Lá fora, a tempestade continua. Fiddler's Green, em pé na frente do trono, limpa seus óculos embaraçadamente enquanto espera Morpheus começar a falar.

- Preciso da sua colaboração, Fiddler's. Preciso saber quantas vezes isso já aconteceu, há quanto tempo vem acontecendo, se este homem foi o único ou se houve outros. Não tente mentir para mim. Não se negue a responder ou será punido.

Fiddler's Green hesitou. Embora não fosse justo o que Lady Alissa estava fazendo a Lorde Morpheus, era verdade que ele também não vinha sendo muito correto com ela. Mas por outro lado, Lorde Morpheus era seu Senhor, não? Fiddler's devia a ele uma certa fidelidade. Além do mais, o pior, que era deixá-lo saber, Nuala já havia feito, fosse por ciúme, lealdade ou qualquer outra coisa. Resolveu contar. Depois pensaria numa forma de ajudar Lady Alissa.

- Milorde - começou - Lady Alissa e este rapaz, que me visita sempre, já vêm se encontrando há algum tempo em mim. Foi em mim que eles se viram pela primeira vez, e ela vinha se sentindo tão só, o senhor sempre tão atarefado e com tão pouco tempo disponível para ela. Senti pena. O rapaz foi muito gentil e atencioso com ela. A princípio apenas conversavam, e eu ficava feliz em ver Lady Alissa sorrir de novo. Mas uma noite em que eu estava particularmente satisfeito (nossa amiga Rosebud havia me visitado na noite anterior), fiz uma lua muito clara e muito brilhante, espalhei um perfume especial no meu ar, então talvez tenha sido um pouco culpa minha. Quando vi, eles estavam se beijando. E desde então vem acontecendo, milorde. E não me parece que seja algo sem importância. Acho que eles se amam.

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- ... quer dizer, ele é meio pai dela, não? Se ele cria os sonhos, e ela é um sonho, então ela é filha dele. Não é? Hein, Eva?

Eva serve mais um pouco de café na xícara de Mervin. Abel recusa quando ela vai servi-lo, pondo a mão sobre a boca da sua xícara. Caim bebe vinho. Mervin acende um cigarro.

- Hein, Eva? - ele insiste.

- Você pergunta muito, cabeça de abóbora - ela responde, enquanto se junta aos demais na mesa, com sua própria xícara de café. Do lado de fora da caverna, a chuva continua.

- N-n-n-n-não, n-n-não, M-m-mervin... qu-qu-qu-quer dizer, n-não é ss-s-sempre, n-necessariamente, assim. S-s-s-sabe, e-e-ela... La-la-lady Alissa, n-n-na-não f-f-f-foi e-ele qu-qu-qu-quem criou. S-s-s-sabe?? G-g-g-geração e-e-es-espontânea?? É v-v-verdade! V-v-verdade m-m-m-mmmesmo!

- Seu imbecil!!!! - interrompeu Caim, enfurecido - Estúpido, retardado, gordo idiota!! Por todos os demônios com ou sem chifres, esse era um segredo! E dos irreveláveis! Você revelou um maldito segredo irrevelável!

Caim levanta-se bruscamente. Antes que Eva ou Mervin possam fazer qualquer coisa para impedir, ele se apossa da faca de pão que estava sobre a mesa e avança para Abel. A faca penetra agudamente na enorme pança dele, sangue e gordura jorrando indistintamente, sujando a faca e a mão de Caim.

- Caim, n-n-n-nããão! D-d-de n-n-n-novo nããããããooooooooo... - Abel grita, mais por força do hábito. Na verdade ele já está acostumado a morrer.

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Capítulo XXV - Da Criação dos Sonhos


Sonhos, pesadelos e manifestações oníricas semelhantes, sejam elas antropomórficas, zoomórficas, antropozoomórficas, daemonomórficas ou outras quaisquer, podem vir a existir de quatro maneiras distintas:

A) Criadas por Lorde Morpheus dos Perpétuos (também chamado Oneiros e K'aic'kul, Rei e Senhor das Terras do Sonhar) de acordo com:

- sua necessidade ou vontade, apresentando as características morfológicas e oníricas de seu interesse;

- solicitações, pedidos ou pagamento de favores recebidos de outrem - sejam deuses(as), mitos, reinos, lugares, outros Perpétuos, anjos, demônios, Ele ou quaisquer outras entidades - mediante prévia aprovação de Lorde Morpheus (exceto se for uma solicitação ou pedido d'Ele, que não necessitam de aprovação. Ele também não presta favores, portanto não recebe pagamentos), apresentando as características morfológicas e oníricas do interesse do solicitante.

B) Escolhidos por Lorde Morpheus dentre qualquer ser vivo (ou com algo semelhante a uma vida) nos universos, bastando para isso que este já tenha morrido, falecido ou desencarnado, e naturalmente mediante prévia autorização de Lady Morte dos Perpétuos, e sendo da conveniência de ambos (Lorde Morpheus e Lady Morte) o remanejamento entre reinos da criatura em questão.

C) Em caso de recebimento de presentes, doações, recompensas ou pagamento de favores feitos a outrem, quando o presente, doação, recompensa ou pagamento pode ser convertido em sonho de acordo com a vontade de Lorde Morpheus, mantendo no entanto sua forma morfológica e onírica original.

D) Mediante geração espontânea a partir da mente adormecida de um ser vivo (ou com algo semelhante a uma vida), se a manifestação onírica desejada ou necessitada pelo ser em questão não encontrar equivalente ou semelhante satisfatório, seja morfologica ou oniricamente, disponível no Sonhar. Tal manifestação será obrigatoriamente aceita como novo habitante do Reino dos Sonhos, com todos os direitos e deveres advindos dessa condição, necessitando apenas passar por um cadastramento junto ao setor responsável, com sede na Biblioteca do Sonhar.

(EXTRAÍDO D'O LIVRO DOS SEGREDOS IRREVELÁVEIS. Autor desconhecido - edição revista e atualizada por Caim do Sonhar.)

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Alissa está inconsolável. Chora, chora, chora. Nos seus aposentos, ela percebe, as paredes estão escurecidas. É ele. A raiva dele. Como Alissa o odeia agora. Nada mais resta daquele que ela conheceu e aprendeu a amar, que recebeu-a tão bem quando ela chegou ao seu reino, que foi tão gentil e galante com ela.

Alissa lembra como se fosse hoje. Primeiro ela não existia; depois estava lá, andando por Fiddler's Green, banhando-se na cachoeira dele. Fiddler's (o bondoso e fraco Fiddler's, Alissa o compreendia e o perdoava) avisara-a de que ela precisaria comparecer ao Departamento de Novos Sonhos para ser cadastrada e receber um lugar para morar. Ela o fizera, e então recebera aqueles aposentos maravilhosos, e uma manhã tomava sol, nua, na sua varanda, quando alguém bateu à porta. Alissa foi abrir, e lá estava ele, branco, alto, os olhos brilhando como duas estrelas negras.

"Bom dia", ele dissera. "Fui informado da sua chegada e desejava conhecê-la. Sou o governante deste lugar. Você está sendo bem atendida? Necessita de algo?"

Começaram a conversar. Vinho foi servido. Ele lhe explicara o que era aquele reino, de que era feito, e como as coisas ali funcionavam.

"Então eu sou um sonho?", Alissa perguntara. "Que engraçado. Quem me sonhou?"

"Isso não importa. O que importa é que você está aqui. E é muito bem-vinda."

Continuaram a conversar. Mais vinho foi servido. Agora ele falava sobre borboletas que esvoaçam no coração, sobre mãos trêmulas e frio no estômago, sobre medo e vontade. Agora ele falava sobre amor.

E eles se beijaram.

As primeiras semanas foram, não havia outro jeito de descrever, um sonho. Presentes, passeios, festas, caminhadas, risos, beijos, amor. Ele amava com a delicadeza da brisa, mas com a urgência da sede.

Alissa estava feliz.

Mas, aos pouquinhos, tudo começou a mudar. Ele já não a visitava com tanta freqüência; os passeios diminuíram, os beijos também. Por duas vezes ela andou até os seus aposentos, para na porta ser informada por serviçais de que ele não poderia recebê-la naquele momento. Então Alissa corria chorando até Fiddler's Green, que a consolava, um tanto embaraçado, e criava flores, pássaros e animaizinhos coloridos e sem nome para alegrá-la.

Foi aí que ela conheceu Jack. Era uma noite linda, e ela passeava por Fiddler's Green, pensando sobre como era possível uma coisa que antes era tão boa podia simplesmente deixar de funcionar. Foi quando o viu. Os olhos dele eram tão verdes quanto os de Morpheus eram escuros (nem mesmo a palavra "negro" era suficiente para descrever a cor dos olhos de Sonho). Seus cabelos, tão louros quanto os de Morpheus eram pretos. E ele era tão risonho quanto o outro era sério.

E lindo. Lindo como as manhãs de primavera em Fiddler's Green.

Engraçado. As primeiras palavras que ele disse a ela soaram exasperadas, e divertidamente irritadas: "Poxa, finalmente! Cansou de se esconder?" Alissa dera de ombros e sorrira, acostumada que já estava a distinguir os visitantes diários do reino ("sonhadores", Fiddler's ensinara) por esse tipo de atitude peculiar ou extravagante.

Desde então Jack sempre aparecia. E quando ela percebeu, estava envolvida. E quando percebeu, o amava.

E então Morpheus soube.

7____________________________________________________________

A porta se abre com um estrondo. Morpheus está parado lá, as chamas do seu manto agitadas como nunca. Alissa não tem medo. Nem mesmo se encolhe em sua cama. Fita-o com olhos furiosos e endurecidos. Não tenta negar.

- O que você vai fazer agora? - ela pergunta - Me condenar ao Inferno?

- Não se dirija a mim desta maneira. Você não sabe o que fala.

- Sim, Sonho, eu sei. O pessoal por aqui comenta, sabe? A gente fica sabendo as coisas. Condenar ao Inferno. Não é isso que você faz com a gente quando não agimos como você quer?

- Cale-se, Alissa. Venha comigo.

Alissa não se move. Continua sentada em sua cama.

- O que você pretende fazer? - pergunta.

- É bom que você se lembre de uma coisa, criança - ele diz, aproximando-se dela e segurando com força o seu braço - fui seu amante, mas acima de tudo sou o Rei deste lugar, e ainda tenho poderes sobre você. Aqui dentro do meu reino as coisas funcionam como eu quero. Você adora Fiddler's Green, não é? Pois é lá que você vai viver agora. No entanto, não terá mais... companhia.

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Jack sonha. Só que é um pesadelo. Fiddler's Green agora tem um muro ao seu redor, e um imenso portão de ferro se ergue contra o céu, terminando em pontas muito afiadas. Nele há uma placa:

 

ENTRADA PROIBIDA

 

Jack tenta escalar o muro. Completamente liso. Tenta subir pelas grades do portão, mas elas estão tão quentes que ele não consegue encostar as mãos. No entanto, ele olha ao redor e vê que outras pessoas estão entrando, passando através do muro e do portão sem nem tomar conhecimento, como se eles não estivessem ali.

Jack se aproxima de uma mulher sorridente. Ela usa chinelos cor-de-rosa, camisola cor-de-rosa, um lenço cor-de-rosa nos cabelos e chupa um pirulito cor-de-rosa.

- Com licença, senhora - diz - a senhora está vendo esses muros e esse portão? Como eles apareceram aí? Por que essas pessoas conseguem passar através deles como se fossem fantasmas?

A mulher tira o pirulito da boca e olha para ele, franzindo o cenho.

- Portões? Muros? Onde?

Jack começa a abrir a boca para falar algo mais, mas desiste. Apenas gesticula com a mão. "Deixa pra lá", diz aquele gesto. Ele se encosta no muro, e vai deslizando as costas ao longo dele, lentamente, até sentar-se no chão.

Em sua cama, de madrugada, ele acorda chorando. Vai até a janela e acende um cigarro.

O dia amanhece e ele não consegue voltar a dormir.

9____________________________________________________________

John pára na porta do bar. Dá um suspiro entediado. São dez da noite; que saco, Kit o espera em casa e ele na rua pagando favores.

"Sim. Eu vou deixar você se esconder por uns tempos em mim", Fiddler's dissera a John naquela ocasião em que ele... precisara de ajuda, por assim dizer. "E nem vou querer saber de quem ou porque você se esconde. Mas você sabe, não é, Constantine, que favores são favores. E você vai ficar me devendo esse."

E agora o gordo filho-da-puta estava cobrando. Bonito lugar, o gordo, embora muito tradicional. John na verdade estava até aliviado, Fiddler's poderia ter pedido um favor bem pior em troca. Esse era fácil. E, afinal de contas, regras são regras. Uma mão lava a outra, sempre foi assim.

John entra no bar.

O cara que Fiddler's Green descrevera está sentado na ponta do balcão, uma cerveja à sua frente, um cigarro entre os dedos. A imagem do desespero. "Mulher", John pensa. "O cara quando fica assim só pode ser por causa de mulher." Anda até ele.

- Jack? Jack Daniels?

O cara levanta os olhos. Estão vermelhos, e há enormes semi-círculos roxos sob eles.

- Sim? - uma voz neutra. Nula. Vazia. "Mulher", John pensa.

- Tenho uma mensagem pra você. Do gordo lá do Sonhar.

- Como é que é?

- Do gordo. O gordo que é aquele lugar com as árvores e as cachoeiras e os passarinhos cantando e aquela merda toda. Fiddler's Green.

- Aaah, sim - Jack responde - estive lá. Estava fechado. Quer dizer, com muros e grades. Não pude entrar - e por um momento, John vê nitidamente, os olhos dele se tornam espelhos, e do outro lado Desespero sorri para ele, satisfeita - Mas a mensagem é do lugar? Não é de Alissa?

John não responde. Leva a mão ao bolso do sobretudo, tira o bilhete que Fiddler's Green escrevera e o estende para Jack.

Jack lê.


 

Prezado Sr. Daniels:

Tenho péssimas notícias. Lorde Morpheus descobriu tudo entre o senhor e Lady Alissa. Ela agora está presa em mim, incomunicável, sob a forma de flor. Como já deve ter descoberto, o senhor também está proibido de entrar em mim. Lorde Morpheus está furioso, e é uma sorte e um alívio que tenha poupado Lady Alissa do Inferno. Não tente, sob hipótese alguma, aproximar-se dela, pois ele não será tão benevolente para com o senhor. Espero que algum dia voltemos a nos reencontrar. Admiro-o imensamente.

Saudações,

Fiddler's Green

PS.: Em caso de, assim mesmo, o senhor estar pensando em resgatá-la de alguma maneira, posso ajudá-lo informando-o de que a flor em que ela foi transformada trata-se de uma orquídea negra, que está assentada às margens do Lago das Mentiras Aceitáveis , sob a Árvore das Histórias de Pescador.


 

Jack termina de ler o bilhete. Amassa-o entre as mãos. Acende mais um cigarro. John percebe que ele também fuma Silk Cut, e se lembra que seus próprios cigarros acabaram.

- Arruma um cigarro desse aí - pede. Simpatizou com esse cara. Talvez até o ajude, depois de saber em que tipo de confusão ele andou se metendo.

- Toma um maço - Jack responde - John nota que ele carrega consigo vários maços de cigarro. "Cara prevenido. Eu gosto dele."

- E aí, Jack? Qual é o problema? Talvez eu possa te ajudar.

E Jack conta. Fala tudo sobre Alissa, Morpheus, os encontros em Fiddler's Green, e sobre como sempre procurara uma mulher como ela, e sobre um livro ( Feitiçaria: Tradição Renovada, de E. J. Jones) que havia lido certa vez, que dizia (entre outras coisas) que se a gente desejasse com muita força, mas com muita força mesmo, poderia transformar em realidade uma coisa com que a gente sonhasse. E Jack acreditara nisso. Mas agora, com Allie transformada em flor? Filho da puta, filho da puta, filho da puta!

John morde a parte interna da bochecha, os olhos voltados para cima. Raciocina se vale a pena comprar uma briga com Morpheus. Mas afinal, diabos, o brancão bem que precisava de uma lição para aprender a tratar melhor as mulheres com quem anda. Digam o que quiser de John, mas ele nunca tratou mal uma mulher. Nunca.

Além do mais, depois da história de Jack, está óbvio para ele o que aconteceu: a tal de Alissa é uma forma-pensamento, porra. Foi Jack quem a fez. É dele; o brancão que se vire com as deusas, feiticeiras e princesas com quem ele costuma se meter.

- Tá bom - diz a Jack - Vou resolver o seu problema. Até já sei como vou fazer. A gente se encontra aqui amanhã cedo.

- Obrigado - ele responde - Alguma coisa me diz que você é a pessoa certa pra me ajudar. A propósito, como é que é mesmo seu nome?

- John. John Constantine.

- UAAAAAAAAU! - Jack arregala os olhos - John Constantine do Mucous Membrane? Não acredito.

John sorri para si próprio.

Ele gosta mesmo desse cara.

10___________________________________________________________

- Mas John, se a mulher virou uma flor! Como você vai fazer pra tirar ela de lá?

Kit está sentada no sofá, as pernas dobradas de lado, uma taça de vinho na mão.

- Kitty, amor. Às vezes você é tão bobinha. Flor... flor a gente colhe, né?

John dá o último trago no cigarro, apaga-o no cinzeiro e levanta do sofá.

Está na hora de dormir.

Está na hora de começar a agir.

11___________________________________________________________

O muro e as grades de que Jack havia falado não estavam lá. Mas isso é o que John esperava; afinal, a proibição de entrar em Fiddler's Green só valia para o próprio Jack.

John vai andando. Bonito lugar, o gordo. Acende um cigarro.

- Constantine! - ele ouve. A voz está ao seu redor. - Quantas vezes vou ter que pedir para não fumar aqui? Isso incomoda a mim, sabe?

- Fica na tua, gordinho. Aliás, você nem me viu aqui. Estou fazendo uma gentileza pra um amigo nosso.

- Verdade? Quer dizer que você veio... você veio...

- Sim, eu vim. Cale a boca. Fique na sua. Você não me viu aqui.

- Oh, Constantine!! Obrigado! Obrigado! Ela vai ficar tão feliz! Lady Al...

- CALA A BOCA!!!! Você quer foder com tudo? Deixa que eu me viro. O lago é pra lá, né?

John segue em frente. Conhece bem o caminho até o Lago das Mentiras Aceitáveis, ele mesmo já contou algumas em sua vida. Aquelas coisinhas-bichinhos coloridas pululam à sua volta, meio coelhinhos, meio algodão-doce. Finalmente avista o lago. Quase ao mesmo tempo sente o cheiro de Alissa (o perfume das orquídeas negras é inconfundível), e tirando o sobretudo (faz calor ali em Fiddler's Green) caminha até a Árvore das Histórias de Pescador.

A orquídea está lá, Alissa está lá. John olha em volta. Ninguém ou nada suspeito. Ele se ajoelha e delicadamente (o mais delicadamente quanto é capaz John Constantine) colhe Alissa. Sente a flor estremecer, quase num suspiro. Ele pode sentir o medo dela.

"Calma, milady" - ouve Fiddler's sussurrar através do ar - "ele é amigo. Ele irá levá-la até Jack."

12___________________________________________________________

A mão é fria e um pouco trêmula no ombro dele. Ele acorda de sobressalto.

- Moço? Vai me levar para Jack?

John abre um olho. Está escuro. Ele olha para o relógio digital na cabeceira. Nossa, muito pouco tempo havia se passado desde que ele fora se deitar. Kitty ainda nem estava na cama.

Ele acende o abajur. A tal Alissa está em pé ao seu lado. Nua. "Putz", ele pensa. "Cara exigente."

Alissa é linda, John vê. Mas nada do que se poderia esperar do sonho da mulher ideal de um homem. Não que, pelo pouco que John tenha apreendido sobre Jack, ele possa ser considerado tradicional.

Alissa tem cabelos muito vermelhos, que descem anelados até abaixo da sua cintura. Os olhos dela são enormes e azuis, quase sem cílios e sobrancelhas, e seu rosto tem tantas sardas que só dá para adivinhar que a pele por baixo delas é branca. Tem uma tatuagem tribal circundando o braço, na altura do bíceps.

"Ah, droga. Tomara que a Kit não venha falar merda."

- Kitty! - ele chama - Dá um pulo aqui, amor?

Ele senta na cama. Kit abre a porta. Alissa está encostada na parede, um braço cobrindo os seios, a outra mão escondendo a frente.

- Oi - Alissa sorri para ela - não é nada não, sabe? É que eu tava presa lá naquele lugar, e o Jack não podia ir me buscar, e aí o seu...ele aí, ele foi me buscar lá, e agora ele vai me levar pro Jack, mas ah, eu tô sem roupa, será que você não tem nada aí pra me emprestar não?

Kit olha para John. Ergue as sobrancelhas, mas já sorri. John dá de ombros.

- Pega uma roupa pra ela.

13___________________________________________________________

É muito cedo. John queria esperar mais um pouco, mas Alissa estava impaciente. Nem dormiu à noite. Ficou metralhando Kit com uma conversa infindável na cozinha, as duas tomando café e rindo até não poder.

Na despedida se abraçaram fortemente.

- Obrigada por tudo, Kit. Depois eu trago suas roupas, tá? A gente aproveita e toma um café.

- De nada, querida. Foi ótimo te conhecer. Apareça e traga o Jack. Acho que ele e John se deram bem.

Agora John caminha pela rua com Alissa. Ela segue quase trotando, perguntando o tempo todo "tá longe? falta muito?". John ainda não decidiu se está profundamente irritado ou achando muito divertido.

De longe John vê Jack, antes de Alissa. Ele está sentado na calçada em frente ao bar, que ainda não abriu. Tem os braços cruzados, os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça baixa, a testa apoiada nos braços. Parece até ter passado a noite ali, esperando. Ao mesmo tempo em que John abre a boca para avisá-la, ela o vê.

Sai correndo desvairadamente, gritando, os cabelos flutuando atrás dela.

- JACK! JAAAAAAACK!

Jack levanta a cabeça. Abre a boca. Falta-lhe fôlego. Ele fica em pé no exato momento em que Alissa se joga em cima dele, sem diminuir o ritmo da corrida, enlaçando-lhe o pescoço com seus braços longos e sardentos.

Jack afoga o rosto nos cabelos dela. Seus olhos estão fechados, mas ele está chorando.

- Allie - ele sussurra. Ela não ouve, mas não precisa. Na verdade, ele está dizendo aquilo a si mesmo. Para poder acreditar.


Fim (02 a 13/04/99)



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© Marcela Catarina Leite Marques
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