À margem da felicidade



Não sabia o que me afligia naquela tarde de ontem. Ou mais fingia não saber do que realmente não sabia, talvez por medo de conhecer a verdade, ouvir algo, não sabia. A verdade é que aqueles dias não haviam sido muito bons, e pelos fluidos emanados de não sei onde, eu advinhava que os seguintes não seriam muito melhores.

Havia dias, eu estava sentado, semi-vivo, esperando ouvir algum barulho que me trouxesse de volta ao mundo e à vida. O telefone não tocava, a campainha não chamava. Parecia que realmente estava sozinho no mundo, embora quisesse ouvir alguma voz que fosse, algum barulho num tom conhecido capaz de acordar-me do transe em que estava.

Mamãe morrera há sete dias. Eu a enterrara há seis. Foi uma morte rápida. Três meses antes da sua morte, os médicos diziam: "sua recuperação é certa. Com os recursos disponíveis atualmente, com o avanço das técnicas quimioterapêuticas, nós poderemos, em pouco tempo, ter sua mãe de volta às atividades rotineiras". Em menos de um mês de tratamento ela havia deixado em minha casa o rastro de sua desgraça. Por toda parte, fios brancos do seu outrora romposo cabelo dançavam ao menor assobio de uma brisa, e era como se me apresentassem como uma macabra dança típica das festas de despedida. O que é certo é que os médicos erraram. A cada dia eu via mamãe e seu corpo sendo corroídos pelos remédios e pelas idas e vindas do hospital. No enterro, estavam presentes alguns parentes que passaram por mim sem desejar pêsames.

Eu havia gasto uma fortuna com mamãe durante os últimos meses. Para o enterro fiz um orçamento digno das festas de recepção a uma família real. É óbvio que notaram todo aquele luxo. É óbvio também que ninguém comentaria. Nenhum dos primos nem tios havia conseguido um sucesso financeiro capaz de superar sequer um quinto da minha fortuna. Com vinte e seis anos eu já dava a papai dinheiro para ele fundar uma casa de repouso e chamar quem quisesse para dividir consigo as fatias do pão que eu amassava e assava com tantos esforços como bem entendessem.

Papai não foi feliz em minha casa. Desde que eu trouxera ele e mamãe para morarem comigo, parece que ele vivia em constante hipnose, como se cada minuto da sua vida fosse dedicado a uma viagem transcendental ao passado, à fazenda, aos bois, cavalos, ao rio, à casa velha, ao filho que atendia aos seus chamados quando já tinha subido alto demais na velha tamarindeira, avisando-me de que a queda lá de cima seria muito dolorosa. Só acordava para comer e dormir. Não conversava mais com mamãe. Comigo mesmo nunca conversou. Se aprendi a ser homem nessa vida foi na rua, porque o homem que papai era eu nunca o conheci. Jamais fomos íntimos.

Foi no ver toda essa depressão de papai que resolvi tornar a vida dele um pouco mais interessante. Um negócio. Eu lhe havia tirado o aluguel dos bois e a venda do leite. Nada mais justo, pois, do que lhe devolver um emprego, de empresário, com todo o status que pode merecer o pai de um filho como eu. Pena que papai não tenha desfrutado desse status por mais do que um mês.

"Era sabido que seu pai era cardíaco, não podia abusar da saúde e, como você bem o sabe, tinha seus momentos de querer comer de tudo. Num desses, provavelmente, seu coração estafado foi abatido por um fulminante ataque". Os médicos entendiam de saúde, de vida e de morte bem mais do que eu. Isso aconteceu há sete anos.

Mamãe continuou tomando conta do asilo por mais um ano. Ela saíra da minha casa com papai, e mesmo depois da morte dele quis continuar a viver no asilo, ainda que eu a tivesse convidado a morar comigo. Um dia, chegou a me dizer que se viesse para a minha casa iria não mais do que morar, quando o que queria era simplesmente viver em algum lugar. Só veio 'morar' comigo quando as fatias do pão se esgotaram (papai não cobrava dinheiro dos velhinhos), e os sócios da casa de repouso tiveram cada um que procurar um novo destino.

Mamãe passava o dia inteiro parece que esperando o início do outro, aguardando somente a chegada do sono, quando então, talvez conseguisse embarcar numa daquelas viagens transcendentais que papai fazia, com destino ao passado, à vidinha sem complicações, à medíocre felicidade que sentia só por estar ao lado de papai. Mamãe me dizia que eu era "fruto do amor, resultado de uma união onde os dois se tornavam um só, faziam-se uma única alma, e, apesar disso, por quê, meu Deus?". Não entendi o que ela quis dizer com isso, ou menos não entendi do que tentei não entender.

Quando papai morreu, mamãe gozava de boa saúde, tinha seus problemas intestinais, mas de resto, era só. Acho que a moléstia maligna que a acometeu só teve uns seis meses de triunfo. Penso que mamãe morreu para matar a doença, para não sentir que ela a consumia a cada dia, aumentando seu território em detrimento ao do inimigo. Os médicos, penso eu, só impediram que as tropas progredissem mais depressa.

No dia da sua morte, mamãe disse a um estranho enfermeiro que gostaria de ver o seu carrasco olhando o seu impiedoso reflexo na luzidia cabeça, agora despida dos longos fios que ela adorava menear com os dedos. O enfermeiro disse que mamãe delirara toda aquela noite. Eu lhe acreditei.

Processou-se o enterro de mamãe no mesmo jazigo onde papai descansava, agora reformado. Serviu-se café em xícaras de porcelana, e todos os parentes presentes velaram os resquícios do corpo de mamãe, que repousava eternamente num esplêndido berço, construído sem medidas de despesas. No final, foram todos embora sem olhar uma única vez para o órfão que, todo de preto, evitava chegar perto do cadáver e ver-lhe a cabeça sem pêlos, brilhante.

Os dias que entremeiam o do enterro e o de agora foram repletos de momentos vazios, quando estive sentado à espera de um chamado, alguém querendo conversar sobre qualquer coisa. Ao toque do telefone, queriam saber quando voltaria ao trabalho, e ao soar da campainha, recebi o jornal com a notícia do falecimento da mãe de um dos mais importantes nomes da nossa sociedade. De nada me importavam essas notícias. Nem sei se ainda quero trabalhar. O que esperei em vão nesses dias, e creio que esperarei em vão nos próximos, é que venha alguém à minha porta, falar com toda a convicção que a causa verdadeira da doença de mamãe não foi nem o desgosto nem as raivas contidas. Que a primeira ferida, a que dominou todo o corpo de mamãe, a que bombardeou seu coração, não foi causada pela nem minha indiferença nem pela minha preocupação única com bens materiais. O que eu queria ler nos jornais é que o fulminante ataque de papai não foi culpa de um frasco de veneno vazio que mamãe encontrou ao lado do corpo. Que não foi causado por um filho que lhe tirara a felicidade, sem ao menos indagar-lhe se era isso que queria.

Enquanto não batem à porta, enquanto o jornal não chega, enquanto o telefone não toca, eu fico aqui, sentado, sem pernas para correr atrás de algo que acho que já perdi, pensando num meio de embarcar numa daquelas viagens de papai, para encontrar um lugar diferente de tudo que já conheci, ser uma pessoa diferente da que fui, e ter de volta os pais que tirei dos seus próprios corpos, das suas próprias vidas sem lhes pedir permissão. Enquanto não me batem à porta, espero em vão pela abstrata felicidade que sempre tirei dos outros, e que, quando a tive, deixei que se me escapasse por conta de alguns pedaços de qualquer coisa palpável.


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© Ricardo Barbosa de Castro
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