Eu hoje fui acordado por um homem gordo de cueca. Ele, além de gordo e estar de cueca, fedia à fumaça de cigarro, que é a coisa que eu mais odeio, quanto mais pela manhã. Pois o gordo começou a gritar e gritar comigo e eu não entendi nada. Foi estranho porque ele entrou calmo, de cueca, e começou a gritar de uma hora para outra. Depois que eu resmunguei alguma coisa ele saiu esbravejando e bateu a porta. Olhei no rádio relógio. Sete horas da manhã. Bela maneira de se acordar.
*** Lembro-me de um dia, quando estava na terceira série do primeiro grau, que resolvi comprar um presente para a menina mais bonita da classe. Na segunda-feira seria dia dos namorados e eu sonhava em dar meu primeiro beijo naqueles labiozinhos bonitinhos. Fui com meu padrinho até a loja de chocolates mais cara da cidade e gastei toda minha mesada economizada de tempos financiando ainda parte do presente por dois anos inteiros de mesada pra levar a caixinha em forma de coração. Na segunda-feira eu estava aterrorizado de nervoso. Mas quando todos saíram para o recreio, deixei o presente na carteira de Carolina junto com um bilhetinho respeitoso e saí fora. Voltei mais nervoso do que tinha saído e, ao chegar na classe, estavam todos em volta dela, deslumbrados com o mimo. Ela sorriu de longe para mim e eu ri torto. Mas passou. Na saída, meu amigo perguntou se eu iria pedí-la em namoro. Disse que não ia, porque tinha medo de levar um não e nunca mais poder pensar nisso ou nela. Ele me olhou assustado. Olhei para trás para ver o que era. Era Carolina, sorrindo de orelha a orelha. Num gesto de extrema bravura, saí correndo para casa e nunca mais dirigi uma palavra a ela.
*** Por algum motivo estranho à minha sabedoria, Carolina foi o nome da minha primeira namorada de verdade. Não era a mesma dos chocolates do dia dos namorados. Mas as minhas reações foram quase as mesmas. Eu amava Carolina. Quando do dia do Natal, resolvi dar-lhe o melhor presente que qualquer namorado faria: uma jóia de ouro. Fiquei dias e dias procurando uma loja que vendesse uma peça de qualidade. Novamente gastei mais do que podia e comprometi outros seis meses da minha mesada (agora aumentada). Quando dei o presente ela adorou e trocamos juras de amor eternas. Um mês depois, ela terminaria o relacionamento alegando que precisava de "mais espaço". E eu fiquei com muito espaço para mim também. Demais até. Me lembrava todo santo dia que ia pagar o crediário da jóia presenteada.
*** Hoje estou amando de novo. Mas não vou dizer quem é. Ela é mulher, bonita e eu gosto dela. E não vou dizer nada além disso. Não vou nunca dizer a ela também - nem a ninguém - que a amo. É um amor secreto e não deve ser comentado. Nem sei porque estou escrevendo isso. Assim, se ela nunca souber, talvez não me diga não e eu não precise sair correndo de novo.
*** Quando estava na catequese, o padre me perguntava se eu rezava à noite. Sempre disse que sim. Mas era mentira, porque eu nunca aprendi a rezar. Uma vez minha prima menor disse que rezar era como conversar com alguém, só que você conversava com Deus, e em silêncio. Comecei a fazer isso. Quando o padre me perguntou novamente se eu estava rezando, disse que sim. Ele perguntou como eu rezava e eu disse que rezava contando a Deus todas minhas vontades de ver a filha da vizinha pelada. Ele puxou a minha orelha e disse que era para eu nunca mais fazer aquilo. Parei de rezar e virei ateu. Queriam o quê!?
*** Mas um dia eu acabei vendo a filha da vizinha pelada. Já era moço e voltava do sítio dos meus avós para a casa, no final das férias. Mamãe disse para eu ir pedir emprestada uma xícara de açúcar na casa da vizinha, para ela poder cozinhar um bolo. A porta da casa estava aberta e eu fui entrando. Chamei pela vizinha, mas ela não atendeu. Ouvi o barulho do chuveiro. Resolvi esperar na sala, segurando a xícara. Pouco mais de meia hora depois, sai do banheiro a filha da vizinha enrolada só com uma toalha na cabeça e dá de cara (e um algo mais) comigo. Fiquei estupefato. Nunca tinha visto uma mulher nua antes. Ela pareceu tão assustada quanto eu e não falou nada. Se contasse, poderia dizer que ficamos quase quatro minutos um olhando para o outro. Repentinamente ela perguntou o que eu queria. Estendi o braço com a xícara e disse "açúcar!". Ela foi até a cozinha, peladona, e encheu a xícara de açúcar. Queria sair correndo, mas achei que pudesse ser falta de educação. Quando estava na porta, olhei para ela de cima a baixo (não pude evitar) e disse "obrigado". Ela sorriu envaidecida e retrucou: "por nada. volte quando quiser". Naquela noite não comi o bolo de mamãe.
*** Acho que daí que surgiram minhas dificuldades com as mulheres. Isso me lembra Isolda, minha terceira esposa. Isolda sempre reclavama como eu não tratava bem as mulheres. Não sei porque isso a incomodava. Normalmente as esposas preferem que seus maridos *não* sejam gentis com outras. Talvez isso tenha sensibilizado Isolda. Talvez ela tenha sido a mais feminista das feministas, uma verdadeira defensora da classe. E provavelmente foi por isso que ela fugiu com Jorgina, a professora de golfe.
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© Ricardo Sabbag Zipperer - 10/11/1999 ricsabbag@uol.com.br
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