- Cara, se ele descobre isso, você sabe, tamos fudidos!
- Eu sei, cara. Mas agora é a única hora pra fazer isso!
- Ele saiu, né?
- Saiu. Foi com a mulher e as filhas em algum lugar aí.
- O pessoal tava falando que ia ter coisa.
- Coisa?
- É. Alguma coisa com ele.
- Alguma coisa com ele?
- É. Hoje.
- Hoje, é?
- Cê tá surdo, meu?
- Não, porra. Mas a coisa não era agora.
- Sei lá, meu.
- Pronto. Quebrei o sistema. Agora é só acertar a senha.
- É... a senha.
- Claro que você sabe a senha, né?
- É que...
- Caralho, cara! Eu disse que você tinha que saber a senha!
- Eu, eu, eu... acho que era alguma data.
- Porra de data, cara! Cê tinha que saber disso.
- Peraí, eu sei, deixa eu lembrar.
- Merda! Se ele pega a gente... se ele souber que a gente fez isso, cara, nós tamos FUDIDOS!
- Lembrei! Lembrei!! Era o aniversário dele!
- E eu sei lá quando é a porra do aniversário dele?
- É um dia que, com certeza, a gente vai ter que 'tar por perto babando ovo.
- Tá, tá, no dia a gente compra flores e bombons pra ele. Agora diz o dia.
- Ele é o tipo do cara que faz questão que todo mundo puxe o saco dele no dia do aniversário, entende?
- Tá, tá, o dia, meu, o dia...
- É sério. Lembra do Silveira, que cobria lá a área do bairro fundo? Pois é. Diz que ele não foi num dos aniversários do chefe. Amanheceu com a boca cheia de formiga.
- Porra de exagero... Por causa de um aniversário?
- Pois é. Dizem que o cara é aficcionado por isso.
- Tá bom, tá bom. E o dia??
- Eu lembro que é no último dia do mês.
- Ai, caceta, 31...
- Não, não... era mês que termina em 30.
- Ô merda, por que não fala de uma vez?
- ...
- Só falta dizer que tem porra de diferença de ano bissexto, o caralho a quatro.
- Não, é 30, 30 mesmo.
- Caceta. 30. Faltam mais dois números. E na terceira tentativa errada a porra trava.
- Peraí, peraí. Eu tô lembrando. Era no fim do ano.
- Fim do ano? Quando é isso? Dezembro?
- Não, não, era antes disso... Tipo... depois do segundo semestre.
- Ô merda! Cê tinha que saber disso, meu!
- Calma, calma. É, é SETEMBRO! Põe aí... 30 zero nove. Vai lá.
- Três, zero, zero, nove.
- E aí?
- Espera... ... merda! Travou! Não é essa a senha!
- Ai, então, então é Outubro. Com certeza. Vai fundo. Dessa vez não tem erro.
- Porra de aniversário. Vai lá. Três. Zero. Um... ai... Zero.
- ...
- PUTAQUEPARIU! Mais uma e a porra trava!
- Então, espera, espera.
- Espera o caralho. Ou a gente faz isso ou a gente morre! Agora é tarde...
- É novembro.
- Novembro?
- Só pode ser novembro.
- Olha, cara... Se não for novembro...
- Se não for eu saio de cueca daqui até a rua.
- Pelo amor de Deus, que seja a porra de novembro o mês.
- Vai por mim.
- Três... zero. Porra. Um. ... tem certeza, cara?
- Agora já foi, meu. Põe o um aí e reza.
- Merda... um...
- Abriu.
- É. Abriu.
- Tá tudo aí?
- Parece que tá.
- Nunca vi coisa tão linda.
- É. Mas tem alguma coisa errada aí.
- Que coisa errada o quê, meu? Tá tudo aí, ó! Te disse que sabia a senha!
- Não. Sério. Que dia é hoje?
- Sei lá... terça-feira.
- É, é terça-feira... Mas que dia do mês?
- Novembro.
- Não, idiota. Eu sei que o mês é novembro. Tô perguntado o dia! Um, dois, dez, essas merdas...
- Peraí... Sábado foi dia 27, eu tava na minha sogra...
- E domingo era o jogo do Coringão.
- Então... se sábado era 27, domingo era 28...
- E segunda era 29.
- Então hoje é...
- CARALHO!
| Anterior | Índice |
© Ricardo Sabbag Zipperer - 10/11/1999 ricsabbag@uol.com.br
www.pucpr.br/pesquisa/jornalismo/tremdeideias