Os Passos e o Frio


Foi assim...

Hora de voltar para casa. Mais um dia frio nessa sempre fria cidade. Cachecol e gorro me cobriam do vento. Na mão direita a maleta, pesada dos papéis. Na esquerda moedinhas contadas do troco para subir no ônibus. Era sábado e eu só pensava em voltar às raízes: maldita hora em que resolvi sair do útero de mamãe. Queria mais era ser um bebê e somente comer e dormir e acordar para descomer e voltar a dormir. Sonhava com isso havia duas semanas.

Se eu sou naturalmente um mal-humorado, naquele começo de tarde de sábado frio eu estava tinindo em boçalidades. Não queria agredir mais ninguém, então me limitava a sinais com a cabeça para quem desejava bons dias ou boas tardes. Assim foi com eles, casal que conheci quando ainda não eram casal numa festa de conhecidos. Ela, loirinha, frágil e vivaz. Ele, corpulento, simpático e decidido. Coincidentemente ou não foi na tarde que os conheci que começaram a namorar. Nunca mais falei com os dois desde então.

Mas como havíamos fatalmente nos visto num mesmo ambiente social, eles, gentis, se acharam na obrigação de me cumprimentar baixinho; cumprimento que eu respondi obviamente com o famigerado sinal de cabeça.

O ônibus chegou. Subimos. Escolhi propositadamente uma cadeira solitária nos fundos do carro. Por algum motivo o jovem casal resolveu sentar atrás de mim. Acabei me sentindo na obrigação de trocar algumas palavras com eles, mas... o mau humor venceu novamente. Para evitar qualquer tipo de embaraço, desembrulhei meu jornal e passei a ler o noticiário. Assim provavelmente não seria incomodado por qualquer.

De qualquer maneira eu notei um pequeno desentendimento entre os dois. Já havia os visto juntos depois daquela ocasião. Era namoro novo. De troca farta de beijos, abraços e carinhos. Naquele sábado frio os dois não estavam tão animados. “Normal”, pensei.

Os primeiros minutos seguiram de frio silêncio naquela região do autocarro. Definitivamente eu me isolei deles, fechando qualquer possibilidade remota de conversa. Mergulhei no jornal. Mas não pude deixar de estranhar o silêncio dos dois, daqueles que constrangem, que demonstram que algo está errado. O jornal agora era somente um anteparo físico para dar a desculpa que eu estava com a atenção presa a outra coisa. Verdadeiramente meus ouvidos queriam saber o porquê do jovem casal estar enfezadinho. É a curiosidade em seu mais puro estado de concentração. Eu, um homem sério, mal-humorado, com frio e atento ao jornal, queria, na verdade, era saber porque eles haviam brigado. Por sorte o silêncio foi irrompido e acabei, em parte, satisfazendo minha curiosidade.

- Eu sou assim mesmo, disse o moço. Percebia que tinha um sotaque mineiro, bem contrastante ao curitibano.

- Sempre fui teimoso desde menino, continuou o rapagão.

- Sabe quando você não acredita no que dizem, e faz as coisas ao contrário até perceber que tá errado? Ainda ele...

Até onde eu pude entender, ele parecia estar se desculpando, ou melhor, se justificando a respeito de alguma coisa especifica. Mas ela se mantinha irredutível. Ouvia aquilo contra sua vontade.

- Então as coisas funcionam assim para mim.

A mocinha deu um daqueles suspiros que significam mais que duas horas de conversação. Ele parou de falar imediatamente.

Silêncio sepulcral. Aproveitei para fazer ruídos com os papéis do meu jornal, o que denunciava a eles como estavam silenciosos. Ri, perfidamente, da desgraça alheia. O moço retomou:

- Vai ter um churrasco do pessoal da minha turma esse fim de semana.

Ela rapidamente retrucou:

- Você vai?

- Eu tava querendo...

Ela se virou novamente para a janela. Estava na frente, mas podia certificar esse movimento.

- Eu nem conheço direito o pessoal. Mas me convidaram. Não vai ser que nem aquele último. Nesse eu tava querendo ir.

Ela era mais decidida no falar.

- Olha, se você quiser ir vai, tá?

- Você não quer ir?

- Se você quiser, vai, tá?

- Eu não os conheço, mas... Você não tá a fim de ir?

- Não, não tô.

- Bom, a gente pode acabar fazendo alguma outra coisa.

- Você não quer ir? Vai então. Vai, se você quer.

- Eu não vou. Se você não vai eu não vou e pronto.

- Eu não quero ir.

- Tudo bem. A gente faz outra coisa.

Ela se virou de novo. Ele estava com a palavra

- A gente compra umas cervejas, pega uns vídeos e fica em casa.

Ela permanecia irredutível.

- A gente também pode sair, já que não tá chovendo. A gente toma umas cervejas e pronto.

- É que eu não quero ir nesses churrascos.

- Tá. A gente sai e toma umas cervejas.

- E agora, o que você vai fazer?

O ônibus estava chegando no meu ponto de partida. Precisava saber o desfecho daquela história. Queria ter o poder de dar vazão àquela conversa. Se eles não me dissessem o fim seria capaz de virar e perguntar aos dois o que fariam naquela tarde. Pela graça divina, o rapaz continuou.

- Vou almoçar aí na rua num por quilo qualquer.

- Não. Vem almoçar comigo na minha casa.

- Eu não. Não quero atrapalhar tua família. O que vai ter, hein?

- Peixe. Sábado é sempre peixe. Tem certeza que não quer vir?

- Não. Deixa que eu como numa birosca qualquer aí.

"Birosca”. Jamais hei de me esquecer do termo usado pelo enamorado.

- Você quer que eu vá almoçar com você? disse a garota.

- Não. Vai pra tua casa almoçar. Mulher minha não vai comer qualquer porcaria. Vai pra tua casa.

Mas o tom do “mulher minha” não pareceu machista. Não que a menina se incomodaria se fosse. Mas não era não. Era de cuidado mesmo.

- E depois você vai fazer o quê? indagou finalmente a loirinha.

A essa altura eu já estava de pé, esperando para saltar. Ainda podia ouvir os últimos murmúrios do casal naquela tarde fria.

- Vou pra casa tirar um cochilo. E depois a gente sai e toma umas cervejas.

Naquele frio, veja só. Saltei, fui atravessar a rua. Ainda pude espiar pela janela um abraço apertado e um beijo apaixonado.

Ajeitei meu casaco e fui embora. Sozinho.


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© Ricardo Sabbag Zipperer
ricsabbag@uol.com.br
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