O clarão e o zumbir.
Se há apenas alguns instantes perguntassem a ele qual seria a cor ou o
som do
Tempo, ele teria sorrido com aquele seu jeito misto de ironia e piedade. Cor do
Tempo? Poesia. Som do Tempo? Fantasia. Entretanto, agora tudo era diferente.
Ele já poderia responder sem ironias ou sinais de piedade. E seus olhos
maravilhados trariam as respostas, vindas direto dos sentidos e do coração.
Agora ele sabia.
O Tempo possuía a beleza do céu nas manhãs frias de inverno, de um
azul suave
e sem nuvens.
E seu som era um ruído monótono, um zumbir de abelhas dentro da colméia;
e
lembrava igualmente o crepitar de madeira numa fogueira acesa à noite, próxima
à
floresta.
Era um momento de grande excitação, suspenso no ar.
Finalmente, desabafou:
- Como no filme, Edgar. É como no filme!
- Isso... - murmurou o assistente, ainda em estado de choque. - Isso,
Dr.Elvio.
Havia momentos na vida de um homem que poderiam ser considerados únicos,
o
ápice de uma existência, o instante supremo diante do qual todos os anos
precedentes pareceriam ter menor importância. Para o físico Dr. Elvio dos
Santos,
o momento era aquele. Lentamente, cofiou sua barba grisalha com dedos trêmulos.
Ergueu os óculos antiquados sobre o nariz e tocou as faces negras como se
estivesse medindo a própria temperatura. Gradualmente, o coração voltou ao
seu
normal. A experiência tinha terminado e, pelo que os mostradores indicavam,
tinha sido coroada de êxito.
A dois passos dele, seu auxiliar nada mais disse, mudo que ficara de
espanto,
olhar fixo no espaço vazio do piso do laboratório. Um milésimo de segundo
antes,
naquele mesmo lugar, o boneco em tamanho natural deixara de existir. Edgar havia
furtado o manequim de uma loja de roupas. Não tinha sido um procedimento muito
ético, mas o cientista tinha sido bastante específico no seu pedido sobre o
modelo, e o prazo era bastante limitado para ficar perdendo tempo com transações
paralelas. Seus olhos mal piscavam. Fiapos do clarão azulado ainda vibravam no
ar ao redor daquele ponto do piso e sob o painel suspenso no teto. O maldito
boneco estava lá há alguns segundos e, agora... macacos o mordessem todo se o
estava enxergando. Divisou as luzes a piscarem por entre fios e fibras ópticas
do outro lado da sala, estabilizando até atingirem uma luminosidade pálida e
uniforme. Finalmente, conseguiu dizer por entre os dentes:
- Fantástico... O senhor conseguiu,
Dr. Elvio. Conseguiu!
O físico sorriu, enquanto estudava as feições saxônicas de seu
assistente.
Adivinhou corretamente que este nunca acreditara de fato que o experimento
pudesse ser concretizado. O rapaz fazia parte daquela estirpe que só acreditava
naquilo que seus olhos conseguissem ver ou que suas mãos conseguissem tocar, e,
por vezes, nem assim. E Edgar não era o único dentro da equipe a pensar dessa
forma; todos os demais membros tinham suas dúvidas e eram desprovidos de paixão
pelo projeto, ficando somente o tempo necessário para cumprir o horário de
trabalho. Ao menos Edgar não demonstrara se importar de ficar algumas horas a
mais além do expediente. E, após meses assim, a recompensa chegara para ambos.
Todos os demais teriam uma surpresa dos diabos na manhã seguinte, ah se teriam.
Dr. Elvio suspirou por dentro, abençoando-se por ser um homem de fé. O
cientista
de meia idade caminhou até um dos terminais do computador e pressionou diversas
teclas.
- Sim, conseguimos, filho - falou a medida em que seus dedos trabalhavam.
Fazia um esforço enorme para conter sua alegria. Se tivesse um daqueles
tambores
tribais de seus antigos antepassados, sairia pelos corredores do edifício
batendo nele com toda a força. Os vigias não iriam achar isso uma atitude
normal
para um respeitável cientista. Sorriu por dentro. - Foi exatamente como naquele
filme do décimo quinto ano da Era Atômica, não foi?
- "A Máquina do Tempo"?
- Certo.
- Eu vi a película no ano passado pela TV.
Dr. Elvio anuiu.
- Também assisti. Só que H.G.Wells e Rod Taylor estavam errados, assim
como
muitas outras histórias de viajantes do Tempo. Não se pode voltar para trás.
Não
podemos viajar para o passado, infelizmente, apesar de todas as teorias de
realidades paralelas e táquions mais velozes do que a luz. Não podemos fazer o
leite retornar à garrafa que se quebrou, nem conversar com nosso tataravô e
experimentar se intrometer na sua vida conjugal a fim de ver o que aconteceria.
- Mas então para o quê...
- Por outro lado - emendou o físico -, o futuro está à nossa espera. O
futuro
já não será um enigma para a humanidade. Você viu, Edgar, você viu! O
boneco se
encontrava bem ali. Depois, apareceu o clarão azulado e aqueles sons como
milhares de vozes cochichando entre si, incentivando-nos a prosseguir. Não foi
maravilhoso? Como observar o nevoeiro de manhã sobre a superfície de um lago.
E
o boneco passou a vibrar como uma miragem sob o Sol... ZAPT! Não estava mais lá.
Edgar postou-se atrás de uma das escrivaninhas, pensativo. Mirou o chefe
da
equipe de cientistas, enquanto este examinava alguns gráficos na tela do
computador. As luzes dos instrumentos ainda brilhavam. Podia sentir o silêncio
vindo do labirinto de corredores e, disfarçadamente, consultou seu relógio:
22h14m. Pigarreou.
- E onde ele está, doutor?
- Como?
- O boneco - lembrou-o.
- Oh, claro, claro - respondeu o cientista. - Meus cálculos não são tão
precisos quanto aqueles do filme de George Pal, mas se tudo correu conforme o
previsto, bem, meu caro, continue aí sentado para não cair duro. Nós acabamos
de
enviar o manequim para mais ou menos daqui a um milhão de anos no futuro!
- Um milhão de anos? - engasgou o assistente.
- Sabia que seu queixo iria cair. Pois é, Edgar, neste exato momento -se
é que
usar esse termo tem algum significado com relação ao Tempo- o nosso
"amigo" está
aqui, ocupando este mesmo espaço, só que a milhares de séculos no amanhã. E
somente Deus poderia dizer com precisão como será este lugar daqui a um
milhão
de anos...
Os olhos arregalados do jovem saxão pareciam estar prestes a pular das
órbitas. Embora Edgar tivesse acompanhado o cientista desde o tempo da
faculdade, jamais concebera na sua mente de que aquele pudesse de fato ser bem
sucedido. Ouvira suas palestras sobre as teorias de espaço-tempo, paradoxos e
relatividade, contudo, no íntimo, julgara serem apenas matérias de interesse
puramente especulativo. Estava satisfeito por poder trabalhar ao lado do mais
importante físico do Laboratório Euzébio Dias de Desenvolvimento Tecnológico
S/A
e procurava absorver cada miligrama de conhecimento. E esperava que, de algum
modo, essas muitas horas-extras fossem recompensadas. E o momento parecia ter
chegado.
- Um milhão de anos no futuro... - repetiu o auxiliar como num eco longínquo.
Levantou-se com cuidado, e, de modo hesitante, foi até onde o boneco se
encontrara, passando sua mão pelo ar. Sentiu o calor que emanava do piso, uma
sensação agradável diante do frio trazido pelo outono lá fora. Bem, agradável
até um determinado ponto, afinal, quem poderia deduzir os efeitos daquele calor
oriundo de um portal a milhão de anos no futuro em sua pele? Voltou para
trás
da escrivaninha, remoendo seus pensamentos, e esfregando uma mão contra a
outra.
Dr. Elvio desviou sua atenção do computador, relaxou na cadeira e cruzou
os
dedos sobre o ventre.
- Pois é, Edgar... um milhão de anos. Já pensou, filho? O que eu não
daria
para ver a cara de quem estará plantado aqui onde nós estamos daqui a um milhão
de anos! Chego a invejar o boneco. Que susto danado não estará dando, hein?
Imagine a cena: de repente, uma luz azulada brilhando a partir do nada e, então,
como se fosse feitiçaria, surge a escultura de um ser que, se muito, eles
deverão conhecer somente através de fósseis.
- Fósseis? - Edgar franziu a testa.
- Exatamente. Não espera que a espécie humana esteja viva até lá, não
é mesmo?
Somos cabeças duras demais para isso. Não, rapaz, seremos substituídos algum
dia. Símios inteligentes talvez, como vi em outro filme, ou escorpiões
racionais, sei lá. Talvez alguma "coisa" totalmente diferente de tudo
o que
conhecemos hoje. Mas que essa "coisa" vai levar um tremendo susto, ah
isso vai!
Do lado de fora vinha uma brisa fresca, após passar pelos filtros dos
condicionadores de ar. Trazia o frescor da noite e do inverno. Evocava
recordações de épocas mais amenas, sem preocupações com o Tempo, equações,
trajetórias de partículas subatômicas ou simples dilemas domésticos como
pagar
as contas. Dr. Elvio procurou saborear aquela pausa. Concentrou-se no fio de ar.
Relembrou a própria infância nas ruas pavimentadas com pedras de Salvador; pés
descalços, joelhos esfolados, vadiando na noite com outros moleques e jogando
pedras nos gatos para eles calarem a boca. Alcançara o seu objetivo e isso era
maravilhoso, mas a que preço. Sacrificara a mocidade e muitos momentos longe da
família. Desejou estar ao lado da esposa, partilhando sua alegria com ela,
substituindo a solidão dela. Meneou a cabeça, numa tentativa de afugentar a
melancolia. Não era momento de tristeza e sim de felicidade, a suprema alegria
de um objetivo impossível ter sido alcançado.
A emoção daquele momento histórico ainda não havia passado
completamente
quando Edgar, reflexivo, voltou-se para questões mais práticas e falou:
- Doutor, Dr. Elvio.
- O que é, Edgar.
- Faz tempo que eu gostaria de fazer uma pergunta. Não sabia se o
invento iria
dar certo, mas agora que deu...
O homem de meia idade anuiu, esboçando um sorriso nos lábios grossos, e
voltando a arrumar os óculos para perto dos olhos.
- Perguntas, perguntas... Sim, rapaz, eu gostaria de ouvi-las. Escolheu
bem o
momento.
Encorajado, Edgar falou de sopetão:
- Que proveito podemos tirar do invento se ele não devolve o passageiro
para o
seu Tempo de origem?
O cintilar nos olhos do físico perdeu seu brilho, a decepção
transpareceu em
seu rosto, tanto quanto na sua voz.
- Edgar, filho, surpreende-me que você, justamente você, após todo
esse tempo
trabalhando comigo e com os outros colegas do projeto, faça esse tipo de
questionamento. Francamente, estou desapontado. Esperava mais de você. Nós
acabamos de testemunhar um dos maiores milagres do século, a ser comentado
pelas
gerações futuras nas escolas e nos livros, e você nem sabe para o que serve?
Para que diabos está aqui?
Apesar do frio, Edgar sentiu suas faces pegarem fogo. "Para quê a
gente tem
que trabalhar, velho idiota?", pensou o assistente. "Dependendo do que
o alto
escalão decidir sobre essa máquina, prevejo no mínimo uma boa promoção.
Quem
sabe um posto mais perto na diretoria, afinal, fiz um monte de horários extras.
Quem é que dá bola para salas de aulas ou livros escolares?"
Controlou-se,
engolindo as palavras que se modelavam em sua língua. Ainda não era o momento,
ainda não. Limitou-se a dar de ombros.
Dr. Elvio dos Santos expirou fundo, alisando a barba. Sentiu vontade de
levantar, apagar as luzes do laboratório e ir embora para casa. Chegou a se
remexer na cadeira, impaciente. Sim, queria ir de encontro ao calor de sua
mulher, todavia, precisava fazer o rapaz compreender e, através dele, os outros
que, por certo, fariam idênticas indagações.
- Bem, ouça, Edgar, preste bastante atenção. Se todos os cientistas do
mundo
fizessem perguntas como a que você acabou de fazer, ainda estaríamos
pendurados
nas árvores. Você não pode ver além daquilo que os seus olhos enxergam? Não
pode
apreciar a beleza que é o desvendar de mais um mistério da Mãe Natureza? O
que
vimos aqui é algo de absolutamente excepcional, com implicações morais e
filosóficas de grande profundidade. É uma pena, mas pense bem, tente avaliar
as
conseqüências da Máquina do Tempo. Quanto a um "proveito" que poderíamos
tirar
da Máquina do Tempo, vejamos... - refletiu por alguns segundos. Lembrou-se então
de uma reportagem de jornal sobre a crise no leste europeu. - Ah! Imagine que
algum grupo terrorista tenha instalado uma poderosa bomba na garagem de um
edifício ou num automóvel em área densamente habitada. A bomba é sensível
ao
menor movimento e mesmo um perito desarmador pode fracassar. Imaginou? Bem,
nesse caso, por exemplo, a máquina do tempo poderia resolver o problema. Apenas
mandaríamos a bomba para o futuro, num Tempo tão estupidamente longínqüo que
não
iria prejudicar quem quer que fosse.
- Hã? Como assim?
Dr.Elvio sorriu.
- É claro, rapaz! Não quer explodir algum habitante que esteja
sossegado em
seu cantinho daqui a um século, um milênio ou mesmo a um milhão de anos. Não
seria ético! Não... Nós mandaríamos a bomba para daqui a dez bilhões de
anos,
quando não haveria mais vida no planeta, já que o Sol estaria moribundo numa
fase de gigante vermelha e teria transformado a Terra num rochedo incandescente.
É um exemplo, e me faz pensar numa nova legislação a ser criada, regendo a
utilização do aparelho.
Os traços saxões se iluminaram e ele pretendia dizer alguma coisa, mas
o homem
mais velho não permitiu, prosseguindo:
- Podemos também enviar cápsulas do Tempo para o futuro. Terão valor
inestimável para os sábios de então e para o povo. Transmitiríamos nossas
mensagens, nossos conhecimentos e nossas falhas com maior fidelidade do que as
pirâmides do Egito ou os monumentos gregos que conseguiram sobreviver.
Enviaríamos amostras genéticas de várias espécies animais a beira da extinção.
Eles poderiam então ser recriados por clonagem em laboratórios e repovoariam
uma
Terra mais inóspita do que a nossa.
- Por que não enviar os próprios animais, doutor?
- Isso seria um outro problema moral a se pensar, Edgar. Não teríamos
como
avaliar o impacto ecológico de uma espécie invasora no mundo do amanhã.
Cometemos erros demais nesse sentido. Tampouco saberíamos com segurança se a
criatura sobreviveria nas condições ora dominantes. Se daqui a milhares de
anos
uma região de savana tivesse se transformado num deserto ou tivesse se
convertido num fundo de mar, um antílope ou um leão transportado morreriam.
Também há o problema de introduzirmos microorganismos de natureza endêmica
junto
com os animais e para os quais poderiam não haver defesas no futuro. Não, o
mais
aconselhável seria deixar para o povo do amanhã decidir o destino a ser dado
aos
nossos "presentes".
"Pode ser ainda que alguma pessoa totalmente desprendida sinta o
desejo de
viajar pelo Tempo sem se preocupar em voltar... talvez uma equipe de
voluntários, não sei, novos adãos e evas. Pode ser ainda que eu esteja errado
e
que outros consigam aperfeiçoar o invento de tal maneira que o regresso ao
Tempo
de origem seja viável. Essa máquina", apontou, "é apenas a
semente, um
protótipo. Quem poderia supor que os fogos-de-artifício dos chineses seriam os
ancestrais dos foguetes nucleares?"
"A viagem para o futuro já havia sido concebida desde os tempos de
Einstein,
só que na prática eles não possuíam veículos cuja velocidade permitisse
experiências relativísticas significativas, além de insípidas diferenças de
relógios ou efeitos em partículas subatômicas. Entretanto, nosso acelerador
temporal de partículas é uma boa variante: molécula a molécula do corpo a
ser
transportado é acelerada em seus movimentos naturais de modo que o corpo, como
um todo, vibre próximo da velocidade da luz... e pimba! Lá se vai o viajante
pela quarta dimensão".
Enquanto o cientista grisalho falava, o jovem auxiliar passou a ter
vislumbres
de possível utilizações para a Máquina Temporal. Realmente, o velho tinha
razão,
embora não exatamente dentro da mesma linha de raciocínio de Edgar. As
aplicações tendiam ao infinito, dependendo exclusivamente da imaginação.
Edgar
deu-se conta de que, nas mãos certas, o invento seria de valor inestimável e não
apenas um brinquedo para físicos caducos. "O governo pagaria uma
fortuna!",
refletiu. "Se houvesse uma guerra, era só despachar o inimigo para o Vazio
Temporal. Se além do Tempo, o Espaço pudesse ser controlado, um espião
poderia
ser transportado na noite seguinte ao seu embarque para o território inimigo,
obter as informações que precisa e retornar à base no dia seguinte... A
Europa
Ocidental daria o couro por isso! Ei! Eu poderia até entrar num banco, sumir
com
todos os ocupantes e ficar sozinho com o dinheiro... E eu sei manejar o aparelho
melhor do que qualquer outro assistente, e sei onde ele guarda os diagramas codificados da Máquina do Tempo..."
O rapaz, afinal, concluiu que não poderia esperar muito mais. Na manhã
seguinte, seus colegas apareceriam e saberiam que o Dr. Elvio alcançara sucesso
num projeto desacreditado inclusive pelos próprios patrocinadores, não que
isso
lhes acarretasse prejuízo, posto que o Laboratório Euzébio Dias de
Desenvolvimento Tecnológico S/A deveria descontar todas os gastos do imposto de
renda. Se pretendia tomar uma providência, tinha de ser agora.
Calmamente, Edgar abriu a última gaveta da escrivaninha, levando sua mão
direita para dentro dela vagarosamente. Mirou a Máquina do Tempo mais uma vez.
Era um conjunto compacto de instrumentos interligados, não tão reduzido quanto
aquele veículo do filme de George Pal, porém suficientemente pequeno para
caber
no interior de um caminhão-baú. Riu por dentro: o plano era ótimo, melhor que
encomenda. Inspirou, sentindo o odor frio do outono; era um odor de orvalho e
ruas vazias, às escuras.
Dr. Elvio consultou seu relógio. Estava exausto e faminto. Não comia
nada desde
o café da manhã. Não sentira fome durante o horário de almoço, quando a
conclusão dos trabalhos parecia iminente, mas agora o estômago reclamava.
Sentia
todo o seu esforço exigir um tributo, talvez uma sopa quente. Tornou e pensar
na
esposa, na promessa de uma viagem há anos prometida. "Desta vez eu juro,
querida, iremos para as praias do Nordeste". Levantou-se então e disse:
- Vamos lá, Edgar. Chega por hoje...
- Não chega não, doutor.
- Hum? Como assim?
O revólver refletiu a luz da sala com um brilho tímido e gelado como a
superfície lunar. A escuridão no interior do cano trazia uma promessa de mau
agouro.
- O que significa isso? - perguntou o cientista, assustado, rosto contraído.
-
Como trouxe isso para dentro do laboratório?
- Quieto, Dr. Elvio. Ande para lá - disse o assistente, apontando o local
onde
o boneco estivera momentos atrás. - Para lá!
- Mas o quê...
- O senhor vai fazer uma pequena viagem.
- O que está fazen...
- Calado, eu já disse. Mova-se! - gritou.
O físico recuou em direção à porta, entretanto, foi rapidamente
detido por
Edgar. O revólver ameaçador continuava apontado para o peito do velho
cientista.
Aquele, então, empurrou-o e ameaçou com uma coronhada a fim de demonstrar que
não estava brincando.
Os olhos negros do Dr.Elvio por trás dos óculos se estreitaram. O
choque
súbito cedera lugar a maior das decepções e, principalmente, à compreensão.
- Estou começando a entender - falou, não conseguindo completar o
pensamento
por causa da pancada em sua testa que fez surgir luzes ofuscantes e uma
repentina escuridão.
- Eu avisei - disse o rapaz, segurando o revólver com a mão trêmula,
como se
segurasse um porrete. Sentia-se excitado, milhões de pensamentos percorrendo
sua
mente em milésimos de segundo. - Ande.
Um fio vermelho escorreu da cabeça do sábio. Pequenas gotas mancharam o
piso
do laboratório e foram pisoteados.
Edgar, com a outra mão, apanhou o braço do cientista, guiando-o para
baixo do
painel luminoso da Máquina do Tempo. Moveu, então, alguns botões e passou a
digitar instruções para o computador. Um ruído intermitente e crepitante
encheu
o ar. Continuou a transmitir ordens. Uma gota de suor escorreu do canto da
testa. Foi nesse momento que, apesar de estar com os reflexos de prontidão,
percebeu com atraso a reação do físico. Embora fosse um homem de meia idade e
estivesse ferido, Dr.Elvio demonstrou um vigor fora do comum. Edgar recordou-se
de uma ocasião em que o cientista comentara ter sido judoca e capoeirista na
juventude. A lembrança veio acompanhada de um sorriso, pois, evidentemente o
adversário com o qual estava engalfinhado não era nenhum Bruce Lee.
Rolaram pelo laboratório, chocando-se contra mesas, paredes, cadeiras e
painéis. Dr.Elvio tentou atingir o ventre de Edgar com uma joelhada, sem
sucesso. Sentia a cabeça pesada, reverberando seguidamente com pulsações de
dor.
Segurava com força a mão armada do rapaz. A surpresa cedera lugar ao instinto
desesperado de sobrevivência. Lutava contra a morte, disso não tinha a menor
ilusão. Recriminou-se pela própria ingenuidade, por ser tão crédulo com relação
às pessoas. Enganara-se com relação ao ex-aluno muito mais do que poderia
supor.
Gemeu. Edgar desferira um forte soco em seu fígado.
- Vai para o limbo! - berrou o auxiliar no ouvido do físico. - Para o
limbo!
De repente, a explosão da arma paralisou ambos os corpos no chão. A
bala
atingiu de raspão o braço esquerdo do Dr.Elvio e este, reunindo todas as forças
de que dispunha, acertou uma cotovelada no estômago do oponente, tirando-lhe o
fôlego. Edgar afrouxou os dedos que seguravam o revólver, e gritou de dor ao
sentir os dentes do cientistas arrancarem sangue de sua mão. Aflito, viu o
outro
se apossar de sua arma.
- Desgraçado! - amaldiçoou Edgar. Pensou nos vigias. Teria algum deles
escutado o tiro? O Tempo mostrava-se cada vez mais curto; e sua situação, mais
delicada. Empurrou o velho com os pés, conseguindo fazê-lo se desequilibrar e
cair no local desejado. Correu para o console do computador. Apertar uma tecla,
somente isso e...
O pavor se apossou do velho cientista. Não poderia deixar o assistente
prosseguir. Ergueu a arma de fogo e a apontou na direção do outro. Nunca antes
em sua vida tinha mirado um revólver para outro ser humano. Abominava armas e a
violência sem propósito, todavia, não se encontrava em posição de pensar
racionalmente. A cabeça rodopiava. O corpo reclamava de dor. Os membros
latejavam. Ele tinha de fazer. Vislumbrou a esposa. Precisava fazer. Pensou nas
praias do Ceará e de Pernambuco. Tinha de atirar. Não poderia deixar o invento
nas mãos daquele sujeito inescrupuloso. O indicador pressionou o gatilho.
Contudo, era tarde demais.
O som e a cor do Tempo.
Dr. Elvio sentiu um calor estranho tomar conta de todo o seu corpo.
Avistou a
silhueta trêmula do rapaz que, por trás do console, sorria e gritava alguma
coisa. Não conseguiu compreendê-lo. Forçou o dedo no gatilho, mas estava
congelado a um passo do disparo. E o calor aumentou e aumentou, cedendo
paulatinamente lugar ao clarão azulado. O portal da quarta dimensão estava se
abrindo. Quis gritar; nem isso conseguiu. E a última coisa em que pensou antes
de desaparecer deste universo foi nas ruas da infância lá em Salvador, por
onde
andara quando menino.
Um brado de vitória partiu da garganta do jovem saxão.
- Deu certo, miserável! Te mandei para daqui a um milhão de anos no
futuro! A
Máquina do Tempo é minha!
As luzes piscaram durante algum tempo até retornarem à luminosidade pálida
de
antes e, por fim, apagaram-se. O zumbido também morreu. O Tempo perdeu a cor de
suas faces e a voz pereceu em seus lábios. Pálido e mudo de espanto,
congelou-se
na eternidade diante do delito cometido.
Edgar procurou recuperar o controle da respiração. Dirigiu-se até a
porta do
laboratório e escutou por um minuto. Nada, nenhum sinal de passos vinha dos
corredores. Excelente. Apagou os vestígios de luta, ajeitou as mesas e
cadeiras,
apanhou os papéis esparramados, limpou as manchas de sangue e foi até o
banheiro
se arrumar.
- Pronto - sussurrou para o seu reflexo no espelho. - O crime perfeito...
Nenhum traço.
Calmamente, na noite avançada de outono, Edgar Isidoro Neto,
físico-assistente, deixou um dos prédios do moderno Laboratório Euzébio Dias
de
Desenvolvimento Tecnológico S/A às 23H31m. Pestanejou contra o frio e, já
dentro
do seu carro, esfregou as mãos de felicidade, antes de pôr-se a caminho de
casa,
tendo ao seu lado uma pequena valise com diversos e importantíssimos disquetes,
contendo os projetos da desacreditada Máquina do Tempo.
Na manhã seguinte, os membros da equipe estranharam a ausência do físico
de
meia idade. Não era de seu feitio. Habitualmente, era o primeiro a chegar e o
último a sair, como convinha a todo bom e dedicado líder. Indagaram Edgar
sobre
o que poderia ter acontecido, e este se limitou a dar de ombros, afirmando que
deixara Dr. Elvio pouco antes da meia-noite e que, depois disso, não o vira
mais.
Uma ligação angustiada, feita para o laboratório pela mulher do cientista,
contribuiu para aumentar o clima de apreensão. Finalmente, um dos diretores foi
notificado do desaparecimento do sábio e ele, em pessoa, desceu do último
andar
aonde se situava seu escritório e pôs-se a interrogar o jovem assistente.
Chamava-se Sr.Daniel Zamora Feliciano, um homem magro, de cabelos loiros e
crespos, aparentando os cinqüenta anos que tinha. Encontrava-se visivelmente
contrariado quanto ao ocorrido.
- Dr. Elvio não disse nada que pudesse indicar as razões de não ter
vindo hoje?
- Não que eu me lembre, senhor.
- Isso é estranho, ele nunca foi de faltar, tampouco de se ausentar da
família
sem dar qualquer satisfação. Você - apontou outro assistente do laboratório,
um
jovem de dentes salientes e cabelos espetados -, telefone para a polícia e
verifique se houve algum acidente de trânsito nas últimas horas.
O assistente fez que sim com a cabeça e dirigiu-se para o telefone mais
próximo, pondo-se a discar. Minutos depois, acenou um "não" para o
Sr.Daniel.
- Diacho... - resmungou o diretor por entre os dentes. - Aonde ele terá
se
metido? Justo agora na fase mais crucial do projeto.
Edgar tocou de leve no braço do sujeito.
- Senhor - cochichou.
- O que é?
- Poderia falar com o senhor a sós por um instante?
- Por quê? Afinal de contas, você sabe ou não de alguma coisa?
- Preferiria falar em particular. É só um minuto.
- Está bem, vamos para o corredor.
Os dois homens saíram da sala. Os demais cientistas, puseram-se a
discutir
entre si, formulando mil hipóteses e curiosos por saber que conversa teria o
assistente com o diretor.
Do lado de fora, o jovem revelou:
- Certa vez eu ouvi o Dr.Elvio resmungando a respeito das más condições
do
laboratório e das restrições de orçamento.
- Isso é um absurdo. Sempre procuramos fornecer o que há de melhor no gênero.
- Sei disso, senhor, entretanto, ele desabafou que, em outro país, seria
tratado bem melhor.
O diretor fez uma careta.
- Está sugerindo que ele nos traiu, rapaz?
- Não sei dizer, senhor. Eu gosto do doutor. Só estou comunicando
aquilo que
ouvi... para ajudar. Só isso.
O Sr.Daniel Zamora Feliciano pôs-se a pensar cabisbaixo. Remoeu os
pensamentos. Apesar de improvável, tinha de reconhecer que a hipótese
apresentada fazia sentido. Toda a documentação havia desaparecido e nenhum dos
seguranças soube afirmar a que horas o físico deixara o prédio. Tinha de
considerar seriamente a possibilidade de traição e dos riscos de se perder a
primazia do invento. Abriu o paletó e tirou de um dos bolsos um enorme charuto
cubano, guardado num tubo de vidro. Acendeu-o, sentindo-se um pouco melhor.
- Conhece alguém que possa concluir o projeto e manejar a Máquina do
Tempo
sozinho? - perguntou.
- Sim, senhor.
- Quem?
- Eu mesmo - respondeu Edgar, num gesto tímido. - Trabalhei muito e bem
próximo ao doutor.
- E você entende direito os mecanismos dela? Poderia conclui-la? Saberia
montar outra se fosse necessário, ou explicar como cada parte dela funciona?
- Levaria tempo, senhor, mas estou certo de que conseguiria.
Uma baforada. Anéis de fumaça perdidos no ar.
- Pois bem... - Leu o crachá - ... Edgar. Prossiga com os trabalhos
junto com
os outros. Preciso ter um resultado favorável o mais depressa possível. Se você
conseguir para mim e os outros diretores, estou confiante de que sua carreira
dentro da firma dará um santo significativo.
Edgar sentiu os pêlos de seus braços se arrepiarem, e não era por
causa do
frio, apesar da manhã estar realmente fria.
- Sim, Sr.Daniel. Darei o melhor de mim, como sempre tenho procurado
fazer,
esteja certo disso. Logo, logo, a Máquina do Tempo estará pronta para
demonstração. Tenho até algumas sugestões interessantes para sua aplicação.
- Verdade? Quais?
- Imagine o senhor que um perigoso terrorista instale uma bomba...
Não demorou nem uma hora para Edgar descobrir que havia algo de errado
com o
equipamento. Embora ele tivesse memorizado todas as etapas para o seu
funcionamento, o melhor que pôde conseguir nesse dia foi reproduzir o clarão
azulado, embora com um brilho de intensidade bem inferior daquele presenciado
quando do desaparecimento do manequim e do Dr. Elvio. Os objetos de teste que
colocara sob o painel continuavam lá como se nada houvesse acontecido.
Introduziu inúmeras variações no tamanho, formato, composição química do
material; também alterou a ordem dos botões que pressionava. Nada. Somente a
luminosidade frouxa, um calorzinho mixuruca, uns barulhinhos e só, ponto final.
Fez um esforço tremendo para não socar um colega que comentara terem feito o
forno microondas mais caro do mundo. Era como se o Dr.Elvio estivesse se
vingando de lá do futuro, em meio aos escorpiões filósofos ou qualquer que
fosse
a raça dominante a daqui a um milhão de anos.
Dias se passaram.
Edgar precisou prestar depoimento à polícia sobre o desaparecimento do
cientista, um contratempo desagradável, mas que precisava ser feito a fim de
afugentar suspeitas. A esposa do físico encontrava-se lá; os óculos escuros não
conseguiam esconder um par de olhos emoldurados de vermelho. E ela tornou a
chorar. Edgar abraçou-a, tentando confortá-la, falando sobre o grande sábio
que
seu marido era. Para o delegado, o ex-assistente, agora cientista-chefe,
respondeu as perguntas daquele tranqüilamente. Conservou o ar de pesar pela
inexplicável perda do Dr.Elvio, numa cidade reconhecidamente violenta e
imprevisível. Omitiu o comentário que fizera ao diretor sobre o
descontentamento
do cientista com o laboratório, tanto por estar consolando à viúva -um
pensamento curioso, considerando-se que, na realidade, o marido estava ou
estaria vivo milhares de séculos após a morto de todos os que agora viviam na
Terra- quanto por saber que tal suspeita já seria de conhecimento do delegado
através de outros depoimentos anteriormente colhidos. Não era o inquérito
policial que o preocupava. Nada havia que pudesse incriminá-lo. O que o
preocupava era o diretor. O Sr.Daniel estava ficando cada vez mais impaciente
com a demora. Recordou da mais recente conversa tida com ele.
- Como é, Edgar? Cadê a Máquina?
- Logo, senhor, logo. Está necessitando de certos reajustes aos
quais eu não
tinha previsto, senhor. Estou acompanhando circuito por circuito, esquema por
esquema até conseguir localizar a fonte do problema. Não tardarei a encontrá-lo.
Peço-lhe mais tempo. Os circuitos são bastante complexos.
- Muito bem, Sr.Edgar Isidoro Neto, terá o seu tempo. Aliás,
"Tempo" tem sido a palavra-chave por aqui nos últimos... tempos. O Projeto Máquina do Tempo
consumiu uma verba considerável da empresa e não pretendemos desistir assim tão
facilmente, principalmente por estarmos, segundo o senhor diz, tão perto do
objetivo. Todavia -advertira-, trabalhe com afinco. Não se esqueça que nossa
paciência tem limites e que sua carreira nesta empresa está em jogo. É tudo
ou
nada para você, não haverá meio termo. Entendeu?
- Sim, senhor.
- Está precisando de gente para trabalhar com você?
- Hã... não, senhor. Estou pretendo inclusive mandar três membros da
equipe
embora.
- Por quê?
- Seus préstimos não estão sendo mais necessários, senhor. Poderão
trabalhar
em outro departamento, onde serão de fato úteis.
- Hum... faça conforme achar melhor. O que me importa são resultados.
Certo?
- Sim, senhor - repetira.
- Ótimo, nada mais temos a discutir. Retorne ao trabalho.
"Resultados", era essa a fatídica palavra. Edgar tivera o bom
senso de demitir
os três cientistas mais abelhudos da equipe e, agora, trabalhava somente com
dois sujeitos passivos, limitados a obedecer ordens e receber seus salários no
final de cada mês. E isso convinha perfeitamente a Edgar.
Os dias se converteram em meses. Toda semana, Edgar apresentava seu relatório
ao diretor, comunicando seu progresso, omitindo o que achava que deveria ser omitido, exagerando onde fosse mais conveniente. Planta por planta, disquete por
disquete, ele foi acompanhando cada fibra da máquina, cada fio, cada chip, cada
mostrador, cada campo de energia.
As estações do ano correram. O outono cedeu lugar a um inverno rigoroso
e de muita chuva. Edgar xingou São Pedro inúmeras vezes por causa do tão detestado
frio. Em seguida, surgiu a primavera, e, com ela, uma mudança radical. Foi um
período agradável e ameno, no qual pôde trabalhar sossegado, exceto pela
eterna
preocupação do êxito. Era como se Deus o tivesse perdoado pelo crime
cometido;
pelo menos, queria acreditar nisso, afinal de contas, não matara o homem de
verdade, só o mandara dar um passeio pelo futuro. O verão surgiu quente e
ensolarado, convidando famílias a irem a praia ou ao campo. Ele não, tinha
coisas a fazer e um futuro promissor a alcançar. Cruzou os dedos para que o
novo
outono fosse menos inclemente. E, de fato, foi. Sequer parecia outono, mas uma
continuação teimosa do verão recém-partido. Bem poderia ser um sinal de boa
sorte. E, para completar, somente faltava ele achar a solução do problema.
Por fim, numa tarde quente e gostosa mal notada por ele, anunciou ao
diretor
ter encontrado o defeito e que estava providenciando seu reparo urgente. O
diretor não ficou tão alegre quanto ele esperava, entretanto, cumprimentou-o
na
esperança de que o sucesso estivesse bem perto. Que fosse para o inferno,
pensou
Edgar.
Fôra um golpe de muita sorte ter sido ele, e não um dos patetas da
equipe, a
encontrar o buraco de bala na Máquina do Tempo. Isso poderia ter gerado
complicações. O tiro disparado contra Dr.Elvio atingira do lado de um dos
mostradores temporais, provocando o rompimento de um ducto de energia. Dessa
maneira, a reserva de energia fora o suficiente para transportar o cientista
para o futuro, porém não o bastante para repetir a experiência
posteriormente. O
rosto saxão suspirou de alívio. Trabalhou sozinho depois do expediente, e não
descansou enquanto não conseguiu efetuar o reparo necessário, bem como
encontrar a maldita bala cravada numa chapa de metal nas entranhas do aparelho.
Marcou uma nova demonstração para a noite seguinte.
Todos os diretores do Laboratório Euzébio Dias de Desenvolvimento
Tecnológico S/A compareceram.
Inúmeros cientistas, de outras áreas inclusive, estavam presentes.
O vice-presidente da empresa em pessoa apareceu com um pequeno atraso,
rosto entediado.
O murmúrio reinante na sala cedeu lugar ao silêncio, quando Edgar se
agachou
sob o painel da Máquina do Tempo e lá depositou um vaso de flores.
- O que é isso? - inquiriu o vice-presidente.
"Um vaso, sua besta, não está vendo?", pensou Edgar, todavia,
exibindo seu
melhor sorriso, falou:
- Será o material de teste, Dr.Argemiro. A cobaia que mandaremos para o
futuro.
- Ah, entendi. Continue, garoto.
Edgar continuou. De dedos cruzados, principiou a digitar instruções no
console do computador. O zumbido invadiu a sala, e os presentes olharam interrogativos
para os lados e uns para os outros. Luzes piscaram enlouquecidas dentro da sala.
O clarão azulado envolveu as delicadas pétalas. As flores passaram a ondular
como uma miragem.
Sussurros espantados.
Olhares fixos no piso sob o painel.
A cor e o som.
E então...
- Funcionou! - gritou um dos cientistas. - Funcionou!
Todos bateram palmas, menos o vice-presidente. Ele caminhou para junto de
Edgar e, olhando-o dentro dos olhos, disse:
- Foi para isso que gastou tanto dinheiro da empresa?
Edgar sentiu seu sangue gelar nas veias.
- Co-como assim, senhor?
- Oras, tanto dinheiro para construir um desintegrador?
- Não, Dr.Argemiro, mandei o vaso para o futuro.
- Conversa - disse o vice-presidente, zangado. - Prove-me de um jeito que
eu possa acreditar.
Edgar sorriu. Passou a vista para todos os presentes e, terminando no
sujeito
empertigado a sua frente, perguntou:
- Sr. Vice-Presidente, quanto tempo se passou desde a volatização do
vaso?
Contrariado, o homem respondeu:
- Dois... Três minutos.
O ex-assistente anuiu.
- Poderemos esperar mais oito minutos?
- Para quê? Tenho o que fazer.
- Somente mais oito minutos, senhor.
- O que acha disso, Daniel?
O diretor, envaidecido por ter sido notado, deu de ombros:
- Vamos dar essa chance a ele.
- Que seja... Oito minutos - e ficou de olho no relógio.
Edgar sentiu a teste ficar cada vez mais úmida de suor na medida em que
o
Tempo foi passando. Rezou para que estivesse certo. O diretor estava certo, era
tudo ou nada, sem meio termo. Os dias tinham transcorrido tão bem, tudo parecia
indicar estar ele num período de boa sorte. Não poderia falhar agora.
Felizmente, para sua total, completa alegria, cravado dez minutos após o
sumiço do vaso, com a Máquina do Tempo desativada, um clarão surgiu sob o
painel, para nova surpresa de todos, inclusive do vice-presidente, e, como num
hábil passe de mágica, lá estava o vaso de volta. Novos aplausos, mais
fortes.
- Parabéns, rapaz - cumprimentou o vice-presidente com um largo sorriso
a
bailar nos lábios. - Você conseguiu de fato, não foi? - E, voltando-se para o
diretor. - Este garoto tem futuro como você me disse, Daniel. Leve-o ao meu
escritório amanhã de manhã. Temos muito o que conversar. Até breve a todos.
E o vice-presidente partiu, acompanhado por seus assessores diretos.
O Sr. Daniel colocou a mão no ombro de Edgar.
- Pois bem, rapaz, ouviu o chefão. Prepare todo o seu material: plantas,
instruções de manejamento, tudo. Um contrato que você deverá achar por
demais
interessante o aguardará para assinatura amanhã... Seu futuro está garantido.
"Futuro"... sempre o Tempo presente. "Presente"... Ah! Ah!
Ah! De novo...
Após receber cumprimentos de todos os diretores e cientistas, estes saíram
do laboratório, deixando-o em paz com seu sucesso e embriagado pela alegria. Andou
em direção à sua escrivaninha e se apoiou nela, saboreando os pensamentos.
Ele conseguiu, realmente conseguiu, e sem qualquer ajuda. Era o único homem no
mundo inteiro que sabia como construir e manusear uma Máquina do Tempo em todos os
seus mínimos detalhes. Não seria aquele paquiderme do vice-presidente ou seu
diretorzinho que iriam ditar normas de agora em diante. Nada disso. Ainda trazia
vivo na memória os planos de possíveis usos para o instrumento. Isso mesmo,
ele
próprio redigiria seu contrato e suas próprias condições. A empresa
precisava dele, mas a recíproca não era verdadeira.
Espreguiçou-se e soltou um bocejo. Consultou o relógio. Era tarde,
contudo,
estava uma noite morna de outono. Iria para casa e teria o sono dos justos. Deus
estava do seu lado, sem sombra de dúvidas, agora não duvidava mais. Caminhou
para um livro falso numa das estantes, digitou a combinação correta e, de
dentro
dele, retirou todos os disquetes do projeto. Apanharia as cópias de segurança
mais tarde no cofre do laboratório, substituindo-as por disquetes sem
importância. Tempo era uma coisa que lhe sobrava agora.
Dos filtros dos condicionadores de ar vinha o odor morno e fresco da
noite, o
cheiro de grama seca à espera de chuva.
Sorriu.
Os momentos seguintes aconteceram muito depressa para ele ter qualquer
reação, exceto a incredulidade. Edgar nada pôde fazer além de perceber o clarão
azulado a se formar sob o painel desligado, e divisar a figura humana tomar forma a
medida em que a luz foi se dissolvendo.
O estampido perfurou seus tímpanos feito o ribombar de centenas de trovões.
O odor! Ele também sentiu o aroma frio e penetrante de outono, de um
outro
outono, invadir a atmosfera morna do laboratório. E o cheiro penetrou fundo
dentro de seus pulmões, tão forte quanto a bala a abrir caminho em seu corpo.
Fazia pensar em folhas secas a rolarem pelo chão e num céu cinzento a ameaçar
chuva. Era essa a imagem construída num segundo.
Foi numa fração infinitesimal que ele compreendeu, simultaneamente a
queda
pesada de seu corpo no chão do laboratório. Como deixara de pensar nisso? Ao
atingir o mostrador temporal, a bala rompera o circuito de tempo e alterara os
dados.
Não era mais um milhão de anos...
... Era somente um ano.