A meu desconhecido amigo



Sinto sua falta sem saber onde
Tenho saudades de um riso que jamais ouvi
Penso em você sem saber quando
Escrevo-lhe sem saber quem

Sim, meu amigo

Eu ainda continuo fumando e usando sandálias
Ainda bebo e tenho insônias
Não me canso de ouvir Legião
E ainda dirijo como uma adolescente

Moro na mesma casa
E durmo ainda ao lado do mesmo cão
Coleciono rolhas de vinho, marcadas com minha anotações inúteis
Minha letra continua ilegível

Ainda devo ao banco e não uso mais cartão de crédito
Nem talão de cheque
Nem pulseiras de camelô
Nem Polo Sports for Women
Nem mochila indiana
que eu costumava usar

Sempre esqueço de tirar minhas lentes de contato
E ainda sonho em viajar para a África
E descer o rio
E pular da ponte
E reclamar que a caminhada é muito longa
E a subida, muito íngreme

Tenho os mesmos pesadelos
E pressentimentos
A mesma preguiça de acordar
E ir ao dentista apertar o aparelho
Ao psiquiatra desafiar a sanidade

Tenho os mesmos livros
Outros tantos que não pude lhe emprestar
As mesmas cicatrizes e as suas em mim
E os mesmos cabelos ralos que também lhe esperam

Sim, meu amigo
Parece que o tempo correu mundo
E se esqueceu de mim
Perdida na esquina da Augusta
ou sentada numa poltrona de cinema
Pensando que sou a única espectadora
De um filme que não verei ao seu lado.

É verdade, meu amigo
Ainda amo a mesma pessoa
Ou a sua mesma sombra
E sofro dos mesmos males e
Choro pelos mesmos medos e sonhos
Que não pude tocar com a palma desta mão

Sim... ainda tenho as mesmas mãos,
Com os mesmos traços, linhas e calos.
Nada mudou.... a não ser chamar-lhe de
Meu desconhecido amigo.


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© Suzi Hong
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